Vulnerabilidade do Varejo em Modelo de Crédito Duplo
A recuperação judicial da casas bahia, protocolada no último domingo, escancarou não apenas a fragilidade financeira de uma das maiores redes varejistas do Brasil, mas também reacendeu o debate sobre um modelo de negócio que depende intensamente do crédito em duas frentes: para o consumidor adquirir produtos e para a empresa manter sua operação. Essa dinâmica é especialmente delicada para redes que atuam com bens duráveis, cujo custo médio é elevado e os clientes são mais sensíveis às variações nas taxas de juros.
No mesmo fim de semana, a Marabraz também recorreu à proteção contra credores, acumulando cerca de R$ 140 milhões em dívidas, frente aos R$ 17,3 bilhões da Casas Bahia em recuperação judicial. Embora as trajetórias dessas empresas sejam distintas, ambas refletem a pressão de um segmento vulnerável a juros altos, consumo retraído e a necessidade constante de capital de giro.
O Impacto dos Juros e a Fragilidade do Crédito ao Consumidor
O presidente da Casas Bahia, Renato Franklin, sintetizou a situação enfrentada em 2025: “Não existe acesso a crédito para a população que quer consumir”. Com as taxas de juros elevadas e a inadimplência em alta, financiar o consumidor torna-se mais caro e arriscado para o varejista. O crédito, que sustenta as vendas, pode comprometer a rentabilidade quando o custo para captar recursos aumenta ou quando cresce o número de clientes que não honram seus pagamentos.
A dificuldade se agrava quando a percepção de risco alcança fornecedores, bancos e demais financiadores. No caso da Casas Bahia, foi informado no pedido de recuperação judicial que transportadoras recusavam entregas devido a atrasos nos pagamentos. Paralelamente, a Marabraz enfrentava problemas para receber mercadorias de seus fornecedores.
Olívia Flôres, presidente da Magno Investimentos, destaca que “quando o fornecedor começa a questionar o balanço da empresa em vez do pedido, a crise já ultrapassou a área financeira e chegou às prateleiras”.
Leia também: Casas Bahia: crise abre espaço para varejo regional disputar R$ 300 milhões em eletrônicos
Leia também: Casas Bahia: Entenda as 3 causas da crise que abala o varejo tradicional
Alternativas Digitais e Pressão Sobre o Varejo Tradicional
A concorrência digital ampliou as opções do consumidor, que agora compara preços, produtos e condições de pagamento com facilidade. Enquanto isso, as redes tradicionais arcam com custos fixos elevados, como lojas físicas, mão de obra, logística e oferta de crédito.
Essa pressão é especialmente intensa entre consumidores de renda mais baixa, público-alvo das redes de móveis e eletrodomésticos. Com orçamentos apertados, a decisão de trocar itens como televisão, sofá ou geladeira é frequentemente adiada.
Eduardo Yamashita, sócio-diretor da Gouvêa Inteligência, observa um descompasso entre indicadores de emprego e renda e as vendas nas lojas: “Embora os dados do IBGE indiquem melhora para o trabalhador, o dinheiro não está chegando às lojas”. Ele destaca que categorias como móveis, material de construção e eletroeletrônicos apresentam desempenho recente abaixo do esperado.
Disputa no Varejo e Perspectivas para o Setor
Nem todos os negócios enfrentam o mesmo nível de dificuldade. Empresas menos dependentes de financiamento, com marcas consolidadas ou focadas em nichos específicos, tendem a passar melhor pelo momento.
O Magazine Luiza surge como um candidato natural para absorver parte do público da Casas Bahia. Um levantamento do BTG Pactual mostra que mais de 90% das lojas que as Casas Bahia planejam fechar têm uma unidade do Magalu nas proximidades. As duas disputam clientes em categorias semelhantes, como eletrodomésticos, eletrônicos e móveis.
Leia também: Bancos e Fabricantes de Eletrônicos Lideram Dívidas da Casas Bahia em Recuperação Judicial
Leia também: Recuperação judicial das Casas Bahia: entenda direitos e obrigações dos consumidores
A força dessa possível transferência se reforça diante do crescimento do canal físico na Casas Bahia. Em 2025, as vendas nas lojas aumentaram 5,9%, enquanto o e-commerce recuou 3,9%. No primeiro trimestre deste ano, essa diferença ampliou-se: o varejo físico cresceu 6,9%, enquanto as vendas online caíram 11%.
O mercado de eletrodomésticos e eletrônicos movimentou R$ 75,1 bilhões em 2025, alta de 5% no ano. Apesar do avanço do comércio eletrônico, a Euromonitor aponta que as redes tradicionais ainda dominam as vendas, sustentadas pela presença física, oferta de crédito e possibilidade de demonstração dos produtos.
Felipe Cima, analista da Manchester Investimentos, ressalta que a expansão digital nem sempre busca lucro imediato, mas sim participação de mercado e escala: “A competição não é necessariamente por rentabilidade imediata, mas por fatia do mercado e crescimento”.
Com a redução da presença física da Casas Bahia, construída ao longo de décadas, a varejista perde espaço em um segmento crucial do consumo de bens duráveis no País, abrindo caminho para uma reconfiguração do mercado.
