A ascensão e o impacto da fórmula de Samuel Klein
Durante décadas, a Casas Bahia consolidou-se como uma das maiores forças do varejo brasileiro, especialmente ao atender consumidores que não tinham condições de pagar à vista por geladeiras, fogões, televisores e móveis. Fundada em 1957 pelo empresário polonês Samuel Klein, que chegou ao Brasil em 1952 após sobreviver a um campo de concentração nazista, a empresa se destacou por uma estratégia que combinava conhecimento do público de baixa renda, oferta de crédito e parcelamento, além de uma operação estruturada para minimizar riscos de inadimplência.
O pioneirismo da Casas Bahia também se refletiu na adoção de tecnologia. Na década de 1990, enquanto concorrentes começavam a implementar seus primeiros sistemas, a rede já atualizava seus softwares em parceria com a IBM Brasil, garantindo agilidade e eficiência. Essa combinação de inovação e foco no consumidor de baixa renda sustentou o crescimento da empresa por muitos anos.
Crise financeira e alta dos juros: o impacto no modelo da Casas Bahia
O cenário mudou radicalmente nos últimos anos. Em 16 de agosto, a Casas Bahia solicitou recuperação judicial, acumulando dívidas de R$ 17,3 bilhões, após registrar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026. Poucos dias antes, anunciou o fechamento de quase 300 lojas, evidenciando a profundidade da crise.
Segundo Alberto Serrentino, consultor da Varese Retail, o principal fator que levou a varejista à recuperação judicial foi o aumento expressivo do custo financeiro. O modelo da Casas Bahia depende fortemente de alavancagem financeira, e o salto da taxa básica de juros de 2% para 15% em poucos meses tornou o financiamento muito caro. “Nunca tivemos um ciclo tão longo de juros reais elevados”, destaca Serrentino.
Além do custo do crédito, a capacidade de consumo do público foi afetada: 82% das famílias brasileiras estavam endividadas em julho, conforme dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o maior índice da série histórica. Essa combinação entre alto custo financeiro e redução do poder de compra tornou insustentável o modelo da empresa.
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O desafio das transformações no varejo e o comportamento do consumidor
Outro ponto crucial para a crise foi a incapacidade da Casas Bahia de se adaptar rapidamente às mudanças no varejo. O sócio da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, Eugênio Foganholo, destaca que o setor passou por transformações aceleradas, e as últimas gestões da empresa não acompanharam esse ritmo. “As administrações recentes não conseguiram tornar a operação mais leve nem reduzir custos de atendimento”, afirma.
O acesso facilitado à informação pelo consumidor também alterou a dinâmica do mercado. Hoje, comparar preços leva segundos no celular, diferente do passado, quando os clientes precisavam visitar lojas. Cerca de 70% a 80% dos produtos vendidos pela varejista são facilmente comparáveis, principalmente com o crescimento dos marketplaces, o que pressiona as margens e exige maior agilidade nas decisões comerciais.
Com uma estrutura robusta de lojas físicas, a Casas Bahia enfrenta ainda mais dificuldades para competir com empresas que operam com custos mais enxutos. “A concorrência regional tem vantagem por conhecer melhor o consumidor local, ajustar o mix de produtos e controlar inadimplência”, explica Foganholo.
Velocidade nas decisões e impacto nas redes regionais
No varejo, decisões rápidas podem ser a diferença entre crescer ou perder espaço. Foganholo enfatiza que, ao contrário de setores onde decisões podem esperar, no varejo é necessário agir imediatamente. Redes regionais, por sua vez, saíram na frente por terem maior proximidade com o mercado e flexibilidade para se adaptar.
Essa agilidade regional expõe ainda mais a lentidão das grandes redes tradicionais, cuja estrutura mais pesada dificulta ajustes rápidos e eficientes. A demora em responder às mudanças contribuiu para a deterioração da posição da Casas Bahia no mercado.
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Perspectivas para a Casas Bahia e próximos passos
Em seu auge, a Casas Bahia chegou a valer cerca de R$ 10 bilhões na Bolsa, com ações ultrapassando os R$ 500 em valores ajustados. Atualmente, as ações valem R$ 0,41, e o valor de mercado está estimado em R$ 400 milhões, refletindo a grave situação da empresa.
Segundo Alberto Serrentino, o futuro da companhia depende em grande parte da decisão judicial sobre o pedido de recuperação. Enquanto isso, a continuidade das operações depende da manutenção do relacionamento com fornecedores para evitar interrupções no fornecimento, perda de vendas e clientes, o que poderia agravar ainda mais a crise.
Medidas adotadas pela empresa para reverter o quadro
Em resposta à Gazeta do Povo, a Casas Bahia informou que está adotando medidas para recuperar o negócio, incluindo o fechamento de 298 lojas e a redução de custos e despesas. A empresa também mudou sua estratégia nos canais digitais, priorizando margem, geração de caixa e retorno sobre o capital empregado, em vez do crescimento por volume sem retorno econômico.
“A Companhia passa, portanto, a priorizar caixa e rentabilidade sobre volume, redimensionando sua operação para uma escala compatível com sua capacidade de geração de retorno”, destacou a nota oficial.
