Impacto da recuperação judicial da Casas Bahia no varejo regional
O pedido de recuperação judicial da Casas Bahia provocou um abalo significativo no mercado varejista, impulsionando um rearranjo em todo o setor de eletrodomésticos e eletrônicos. Com a diminuição da participação da gigante, redes regionais ganharam terreno, registrando crescimento nas vendas e ampliando sua presença junto aos consumidores que antes estavam fiéis à varejista.
Levantamentos recentes mostram que lojas de varejistas próximas a unidades das Casas Bahia que fecharam as portas em cidades como Blumenau (SC), Chapecó (SC), Naviraí (MS), Curitiba (PR) e Ourinhos (SP) tiveram um aumento entre 10% e 30% no volume de vendas. Essa movimentação reflete a rápida adaptação do mercado local diante da saída de um player dominante.
Vantagens das redes regionais frente à crise
Fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos, atentos à mudança, passaram a direcionar estoques antes destinados à Casas Bahia para redes regionais. Para acelerar esse processo, oferecem condições comerciais atrativas, como vendas sob regime de consignação, que garantem fluxo de caixa e redução de riscos para as varejistas.
Redes regionais, muitas vezes de origem familiar, se destacam por operar com menor alavancagem financeira e menor exposição à inadimplência, especialmente quando comparadas às grandes redes que dependem de aprovação bancária para o financiamento dos consumidores. A agilidade dessas empresas vem da proximidade direta dos proprietários com o dia a dia da operação, o que reduz burocracias e permite decisões rápidas.
Leia também: Casas Bahia: Da liderança no varejo à recuperação judicial com dívidas bilionárias
Leia também: Bancos e Fabricantes de Eletrônicos Lideram Dívidas da Casas Bahia em Recuperação Judicial
Rede MM: exemplo da força regional no mercado
Exemplo desse movimento é a rede MM, com sede em Ponta Grossa (PR), que conta com mais de 230 lojas no Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e interior de São Paulo. Fundada em 1978, a empresa faturou R$ 1,8 bilhão no ano passado e projeta fechar 2026 com R$ 2 bilhões em vendas.
Segundo Marcio Pauliki, CEO da MM, a fidelidade dos clientes e o uso do carnê próprio para financiamento contribuem para a baixa inadimplência e para o aumento das vendas. Recentemente, a empresa recebeu propostas comerciais vantajosas de grandes fabricantes para ampliar o volume de negócios, incluindo o regime de consignação, que permite pagar pelos produtos conforme são vendidos.
Expansão e contratação em meio à crise
O grupo varejista familiar, com 60 anos de mercado, também atua no atacado e na fabricação de colchões. Com 400 lojas distribuídas em nove Estados, a expectativa é alcançar R$ 14 bilhões em faturamento neste ano, sendo metade proveniente do varejo.
Diante da demissão de cerca de 3 mil trabalhadores pelas Casas Bahia, redes como a MM aproveitam a oportunidade para reforçar suas equipes. A empresa, que atualmente conta com 650 funcionários, tem 150 vagas abertas e deve contratar mais 150 temporários até o fim do ano, totalizando 300 vagas que podem absorver os desligados da gigante do varejo.
Leia também: Casas Bahia avalia recuperação judicial para enfrentar crise financeira
Leia também: Casas Bahia: Entenda as 3 causas da crise que abala o varejo tradicional
Ocupação de pontos comerciais e estratégias de fidelização
Além da ampliação do quadro de funcionários, a MM negocia a locação de seis pontos comerciais de lojas fechadas das Casas Bahia em Blumenau (SC), Chapecó (SC), Naviraí (MS), Ponta Grossa (PR), Curitiba (PR) e Ourinhos (SP). Essas ações fazem parte de uma estratégia para captar clientes que ficaram sem atendimento após os fechamentos.
Para atrair consumidores, a rede lançará uma promoção que premia quem pagar boletos das Casas Bahia ou de concorrentes nas lojas MM e fizer uma compra no carnê próprio da rede. A oferta prevê bonificação na prestação ou brindes equivalentes, com início previsto para 24 de abril.
Desafios e oportunidades no mercado de eletrodomésticos
O impacto da crise na Casas Bahia é perceptível na composição da dívida da empresa, que soma R$ 17,3 bilhões, com cerca de R$ 5,8 bilhões devidos a grandes fabricantes de eletrodomésticos e eletrônicos. O setor acompanha com atenção o processo de recuperação judicial, ciente de que a saída da gigante abre espaço para outros competidores, mas também traz incertezas para a cadeia de fornecedores.
Antes da crise, a Casas Bahia respondia sozinha por 30% das vendas de linha branca, 25% do volume de TVs e 15% dos eletroportáteis no País. A reconfiguração desse mercado deve ser acompanhada de perto, pois afeta diretamente empregos, produção e o ritmo da economia local em cidades dos Estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde o impacto da mudança já é sentido.
