Contexto e importância do debate sobre a cultura redpill e prevenção ao feminicídio
O aumento dos casos de feminicídio e a disseminação de discursos de ódio contra as mulheres em grupos virtuais, especialmente aqueles ligados à chamada cultura redpill, evidenciam a necessidade urgente de discutir relações de gênero, a educação de meninos e as manifestações do comportamento masculino na sociedade atual. É neste cenário que acontece a 4ª edição do projeto Opará Saberes, que, em 2024, traz como foco central a Educação Antimachista como estratégia essencial para prevenir a violência contra as mulheres.
O evento conta com a participação do jurista Anderson Eduardo Carvalho de Oliveira e do filósofo Renato Noguera, especialistas reconhecidos no tema, que ministrarão uma aula pública gratuita nesta terça-feira (26), no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Bahia. As inscrições poderão ser feitas presencialmente no local, e os participantes receberão certificado de participação.
Transformações sociais e o papel da educação antimachista
Ao refletir sobre o crescimento dos feminicídios, Renato Noguera destaca as mudanças sociais vividas pelas mulheres e as reações provocadas por essas transformações. “As mulheres têm se organizado cada vez mais, ingressado na universidade e conquistado espaço no mercado de trabalho. Por outro lado, os homens vêm encontrando menos oportunidades para exercer a masculinidade tradicional, marcada pelo protagonismo exclusivo. Os privilégios masculinos estão sendo questionados, o que intensifica os conflitos e a violência contra as mulheres”, explica o filósofo, autor de obras como “ABC do Amor” (2025) e “Porque Amamos: o que os mitos e a filosofia têm a dizer sobre o amor” (2020).
Noguera ressalta que, apesar da existência de uma legislação avançada para punir crimes contra mulheres, é fundamental investir na prevenção por meio da educação. “É preciso fomentar uma educação que incentive os meninos a desenvolverem uma relação responsável com os afetos e o cuidado”, defende.
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O filósofo também analisa como o patriarcado, o machismo e a misoginia estruturam comportamentos violentos. “O patriarcado é um sistema; o machismo, uma tecnologia social; e a misoginia, uma prática discursiva. Esses elementos levam os homens a buscarem ser fortes e poderosos para se sentirem amados, mas também a temerem as mulheres. Em sociedades com alta violência de gênero, esse medo se manifesta com violência e controle”, aponta.
Projeto Opará Saberes e sua contribuição para a educação e justiça
Idealizado pela escritora e intelectual ativista Carla Akotirene, doutora em Estudos Interdisciplinares de Gênero, Mulheres e Feminismo pela Universidade Federal da Bahia (PPGNEIM/UFBA), o projeto Opará Saberes conta com parcerias da UFBA, da OAB, do Ministério Público da Bahia (MPBA) e do Instituto Juristas Negras. Em seu décimo ano, o projeto visa promover um debate amplo sobre educação antimachista, estendendo ações para crianças e adolescentes vulneráveis à influência de discursos de ódio, além de qualificar operadores do Direito para intervenções mais eficazes com homens autores de violência.
“Este ano, o projeto retoma com o objetivo de fortalecer a educação antimachista, atuando na prevenção da violência contra as mulheres e na formação de profissionais do sistema de justiça”, afirma Carla Akotirene.
Educação antimachista e responsabilização educativa
Anderson Eduardo Carvalho de Oliveira destaca que a iniciativa atua em duas frentes essenciais. “Primeiro, a prevenção junto a adolescentes e jovens expostos a discursos de ódio nas redes sociais. Segundo, a qualificação dos operadores do sistema de justiça que aplicam a Lei Maria da Penha, focando na responsabilização educativa dos homens autores de violência”, explica o pesquisador, mestre e doutor pelo PPGNEIM/UFBA.
Ele ressalta a urgência da medida diante do contexto atual: “Vivemos um paradoxo. Temos uma das legislações mais avançadas do mundo, mas o feminicídio continua em alta. Isso demonstra que a punição isolada não é suficiente; é necessário atuar nas estruturas que geram a violência. A pena e a educação devem andar juntas para transformar as masculinidades de forma efetiva”, defende Anderson, bacharel em Direito e especialista em Direito Penal e Criminologia.
Início da 4ª edição do Opará Saberes e programação
A 4ª edição do Opará Saberes foi aberta no dia 20 de maio com uma conferência do pesquisador Deivison Mendes Faustino, doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor de obras como “Frantz Fanon: um revolucionário, particularmente negro” (2018) e “O colonialismo digital: por uma crítica hacker-fanoniana” (2023).
O curso segue nesta terça-feira (26), às 18h, no auditório da OAB Bahia, localizado na Rua Portão da Piedade, nº 16, Piedade, Salvador. A entrada é gratuita, com inscrições feitas no local.
