Bahia avança, mas enfrenta barreiras para expandir sua economia
Conhecida pelos seus destinos paradisíacos e pelo rico patrimônio histórico, a Bahia se mantém como a sétima maior economia do Brasil. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) do estado cresceu 2,7%, movimentando R$ 536,7 bilhões, conforme dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). Deste montante, R$ 307,1 bilhões foram gerados pelo setor de serviços, R$ 115,8 bilhões pela indústria e R$ 53 bilhões pela agropecuária.
Entre os setores, a agropecuária foi a que mais cresceu, com alta de 10,3%, seguida pela indústria, que avançou 2,9%, e os serviços, que cresceram 1,7%, segundo a SEI. Apesar do desempenho robusto, esses números evidenciam desigualdades entre os segmentos e desafios persistentes que limitam a expansão da atividade econômica no estado.
Indústria baiana ainda engatinha
O economista e professor universitário Antônio Carvalho destaca que a Bahia sofre com a falta de indústrias de grande porte e setores que movimentem cadeias econômicas amplas. “Talvez o primeiro fator seja a ausência de uma atividade muito grande para a indústria e setores mais intensivos em atividade econômica”, afirma. Carvalho observa uma carência de políticas efetivas para atrair indústrias e segmentos que demandam maior atividade econômica.
Em 2025, a produção física da indústria baiana cresceu apenas 0,3%, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisada pela SEI. Das 11 atividades industriais pesquisadas, só quatro registraram crescimento: derivados de petróleo avançaram 5,1%; máquinas, aparelhos e materiais elétricos, 11,5%; produtos de minerais não metálicos, 5,5%; e celulose, papel e produtos de papel, 1%. Por outro lado, produtos químicos recuaram 8,2% e couro, artigos para viagem e calçados tiveram queda de 12,3%.
Um exemplo recente de investimento industrial é o complexo da BYD em Camaçari. Menos de dois meses após a inauguração em dezembro de 2025, a unidade já empregava mais de 2 mil trabalhadores, conforme divulgado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia. Mesmo assim, Carvalho ressalta que grandes investimentos nem sempre geram oportunidades qualificadas para a mão de obra local, pois postos especializados costumam ser ocupados por profissionais de fora, enquanto os moradores locais ficam com funções menos remuneradas.
Educação e informalidade ainda são entraves
O cenário educacional também pesa. Em 2024, 10,8% dos baianos com 15 anos ou mais eram analfabetos, índice que mais que dobra a média nacional daquele ano, que foi de 5,3%. Em 2025, a taxa nacional caiu para 4,9%. Essa realidade impacta diretamente a qualificação da força de trabalho e limita o acesso a empregos melhores.
A informalidade é outro desafio relevante. Em 2025, 52,8% da população ocupada na Bahia estava na informalidade, terceira maior taxa entre os estados brasileiros, atrás apenas de Maranhão e Pará, segundo o IBGE. Para o economista Cássio Besarria, essa situação restringe o acesso ao crédito, dificulta investimentos em tecnologia e limita a participação das empresas em cadeias produtivas mais complexas, além de reduzir a base de arrecadação tributária que financia investimentos públicos essenciais.
Renda baixa e mercado de trabalho
O rendimento nominal mensal domiciliar per capita da Bahia em 2025 foi de R$ 1.465, segundo o IBGE, abaixo da média nacional de R$ 2.316. O rendimento real habitual médio de todos os trabalhos no estado foi de R$ 2.284, o segundo menor do país, apenas à frente do Maranhão. A média brasileira atingiu R$ 3.560. Carvalho destaca que essa realidade reflete uma população empobrecida, com poder de compra reduzido que se agrava diante da inflação.
Apesar disso, o mercado formal registrou avanços. Em 2025, a Bahia criou 94.380 empregos com carteira assinada, um aumento de 4,41% no estoque de vínculos trabalhistas, conforme dados do Novo Caged sistematizados pela SEI. A taxa média anual de desemprego caiu para 8,7%, menor patamar desde 2012, embora ainda superior à média nacional, que foi de 5,6%.
Logística e infraestrutura limitam competitividade
Outro ponto crítico é a infraestrutura logística. Carvalho aponta que a Bahia enfrenta desafios na integração dos modais de transporte e na qualidade da malha viária, refletindo problemas nacionais. A BR-324, corredor principal entre Salvador e Feira de Santana, simboliza esses gargalos. Em maio de 2025, quando o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) assumiu o trecho, a maior parte da rodovia estava em condições regulares, ruins ou péssimas, segundo o Índice de Condição da Manutenção (ICM) do órgão, conforme levantamento citado pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
Após intervenções, em junho de 2026, o trecho apresentava melhorias, mas ainda enfrentava problemas estruturais que demandavam reparos, como a interdição parcial do km 604 em Simões Filho devido a trincas e afundamento provocados por falha em um antigo bueiro. A Bahia tem cerca de 7,4 mil quilômetros de rodovias federais sob responsabilidade do DNIT, a maior malha do país sob o órgão. Em 2025, 74% dessa extensão estava em boas condições e R$ 865,6 milhões foram investidos em melhorias.
Além das rodovias, a infraestrutura portuária enfrenta limitações. O Porto de Salvador, principal terminal de contêineres do Nordeste, registra filas de caminhões e dificuldades de acesso, o que eleva custos logísticos. A Bahia conta com três portos públicos administrados pela Companhia das Docas do Estado da Bahia (Codeba): Salvador, Aratu-Candeias e Ilhéus, além de Terminais de Uso Privado. Salvador destaca-se na movimentação de cargas gerais e comércio exterior, incluindo rota semanal com a China. Entre janeiro e agosto de 2026, movimentou 5,06 milhões de toneladas, 14,15% a mais que no mesmo período de 2025.
Distâncias e transporte aéreo dificultam o agronegócio e a conectividade
O agronegócio baiano depende fortemente do transporte rodoviário, o que encarece a logística devido às grandes distâncias, como a de Luís Eduardo Magalhães até Salvador, que ultrapassa 900 quilômetros. Em 2025, o setor movimentou R$ 118,4 bilhões, representando 22,1% da economia local, com crescimento real de 4%. A produção de grãos avançou 10,8%, com colheitas de algodão e soja crescendo mais de 16%.
O transporte aéreo enfrenta concentração em Salvador, dificultando conexões regulares em cidades do interior, como Feira de Santana, que tem dificuldade para manter voos comerciais. Isso reduz a circulação interna e limita o turismo e negócios regionais. Uma malha aérea mais integrada facilitaria o deslocamento de pessoas e visitantes, segundo Carvalho.
Turismo cresce, mas patrimônio histórico precisa de atenção
O turismo é um dos pilares da economia baiana, com crescimento de 6,6% em 2025, acima da média nacional, segundo a Pesquisa Mensal de Serviços do IBGE. Os aeroportos de Salvador, Porto Seguro, Ilhéus e Vitória da Conquista movimentaram cerca de 11 milhões de passageiros, com alta de 5,8%. O turismo internacional também avançou, com 211.539 visitantes estrangeiros entrando pela Bahia, um aumento de 47,3% em relação a 2024.
Entretanto, o potencial turístico poderia ser melhor explorado se o patrimônio histórico estivesse em melhores condições. O Centro Histórico de Salvador tem imóveis deteriorados, como o desabamento do teto da Igreja de São Francisco de Assis em fevereiro de 2025, que resultou em uma morte e seis feridos. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já havia emitido auto de infração por falta de manutenção.
Transição energética e futuro promissor
A transição energética desponta como uma grande oportunidade para diversificar a economia e atrair investimentos. A Bahia lidera a geração eólica no país, com mais de 35% da produção nacional, e possui cerca de 11,8 GW em energia eólica e 2,97 GW em solar fotovoltaica, quase 99% renováveis, segundo a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) e dados da Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia.
Projetos industriais relacionados, como metanol e amônia verdes, contam com investimentos bilionários e podem gerar empregos qualificados. O desafio está em ampliar os efeitos econômicos para fornecedores locais, gerar empregos de qualidade e fomentar novas atividades industriais ligadas à cadeia energética.
Necessidade de investimentos estruturais para sustentar crescimento
Para avançar, a Bahia precisa investir em infraestrutura — rodovias, ferrovias, portos e aeroportos — para tornar o estado mais competitivo e atrair empreendimentos de maior porte. Segundo especialistas, é fundamental que o crescimento do agronegócio, turismo e energias renováveis gere valor agregado local, com industrialização, inovação, qualificação profissional e redução da informalidade.
Cássio Besarria destaca a importância de programas de formalização, educação alinhada às demandas do mercado, inovação e redução das desigualdades regionais para garantir que o crescimento se traduza em empregos melhores e maior renda para a população baiana.
