Rodelas: A Cidade que Espera pelo Oscar
RODELAS, BA (FOLHAPRESS) – Todos os dias, de Rodelas (BA), saem entre 15 e 20 caminhões carregados de cocos, resultando em impressionantes 86 mil toneladas anuais, tornando essa localidade a maior produtora do fruto no Brasil. Porém, atualmente, os coqueiros não dominam mais as conversas nas calçadas típicas das pequenas cidades. A poucos dias da cerimônia do Oscar 2026, os moradores alimentam o sonho de um filho ilustre que pode conquistar a primeira estatueta de melhor ator para o Brasil.
Localizada às margens do rio São Francisco e distante 566 km de Salvador, Rodelas guarda as primeiras memórias de Wagner Moura. O município, que carrega marcas profundas da construção de uma hidrelétrica, foi o cenário da infância do ator, que se estabeleceu na cidade após se mudar muito pequeno.
“Nosso tempo livre era aproveitado nas margens do rio. Não havia celulares, então criávamos peças teatrais e brincávamos na rua”, relembra Joedson Ribeiro, 51 anos, diretor de Esportes e Cultura de Rodelas e ex-vizinho e colega de escola do ator.
Os Primeiros Passos no Teatro
A trajetória artística de Wagner Moura começou em 1987, em um grupo amador da cidade chamado Guterchaplin. A primeira apresentação, realizada nas ruas, foi um auto de Natal intitulado “A Profecia”. Rangel Amaral, 58 anos, diretor teatral, recorda: “Convidei o Wagner porque percebi que ele era um garoto especial, sempre com aquele algo a mais”.
Contudo, um ano depois, em 1988, um evento marcante alterou a vida de todos os moradores da região: teve início a construção da Barragem de Itaparica, atualmente conhecida como Usina Hidrelétrica Luiz Gonzaga. O projeto resultou na inundação de sete cidades, um momento que Rosalvo de Almeida Rodrigues, 64 anos, agricultor e pesquisador da história local, descreve como “um dos mais tristes para a população”.
A nova Rodelas foi erguida a poucos metros da original, em uma área mais elevada. Contudo, a mudança deixaria cicatrizes profundas na memória dos habitantes. “Antes, tínhamos uma cidade cheia de belezas naturais, como cachoeiras e ilhas. A história e as raízes familiares foram submersas”, lamenta Rodrigues.
Desafios e Recordações
Em um documentário da época da inundação, o jovem Wagner Moura expressa sua tristeza pela mudança: “Não queria realmente sair de lá”. Para ele e muitos outros, a nova cidade representava um mundo estranho e desconhecido.
“É uma cidade moderna, com ruas planejadas e asfalto, mas carece de história. Tudo é novo aqui; nossa verdadeira história ficou debaixo d’água”, reflete o pesquisador. A família de Wagner permaneceu em Rodelas até 1990, quando se mudaram para Salvador para que o menino pudesse concluir os estudos. Ele ainda teve a oportunidade de atuar em sua cidade natal na peça “A Estrela”.
“Desde pequeno, Wagner foi um garoto diferenciado, sempre trazia ideias novas e criativas. Aprendi muito com ele”, relembra o diretor Amaral.
Orgulho e Esperança
Hoje, entre os pouco mais de 10 mil habitantes estimados pelo IBGE, é fácil encontrar quem esteja ansioso pela cerimônia do Oscar, marcada para o próximo domingo (15). Na orla da cidade, a pescadora Cícera Maria Silva dos Santos, 54 anos, expressa sua fé: “Em nome de Jesus, ele vai chegar lá”. Ela menciona o orgulho que a cidade já sente em relação ao Globo de Ouro que ele conquistou, e acredita que um novo prêmio será ainda melhor.
Entre os moradores, o professor Paulo Afonso dos Santos, 68 anos, destaca a união que a cidade tem em torno do ator: “Todo mundo aqui adora Wagner e celebra suas conquistas”. Sua declaração foi feita na calçada da igreja matriz, um local que, assim como o Guterchaplin, faz parte da história do ator e continua a ser um espaço de expressão artística.
Embora Rodelas conte apenas com um grupo de teatro, os sonhos artísticos persistem. O diretor teatral Amaral acredita que novos talentos podem surgir: “Rodelas possui muito potencial, quem sabe não aparece um novo Wagner Moura por aqui?”
