Diretrizes das Universidades sobre Uso de IA
O debate sobre a utilização de inteligência artificial (IA) na educação tem ganhado destaque nas instituições de ensino superior do Brasil. O Conselho Nacional de Educação (CNE) está em processo de elaboração de um parecer que estabelecerá diretrizes nacionais para o uso da IA em todos os níveis de ensino. Até a última atualização desta reportagem, em 16 de outubro, o texto estava em fase de discussão e aguardava as últimas recomendações do Ministério da Educação (MEC). Espera-se que, em breve, o documento seja votado e, em seguida, encaminhado para consulta pública.
Enquanto isso, universidades públicas brasileiras têm tomado a iniciativa de criar manuais próprios que definem as regras e recomendações sobre a aplicação de IA no ambiente acadêmico. Um exemplo disso é a Universidade Estadual Paulista (Unesp), que recentemente lançou um guia para alunos e docentes, categoricamente delimitando o que é permitido e o que não é no uso de ferramentas de IA.
O Que é Permitido
De acordo com o guia da Unesp, algumas práticas são autorizadas, como:
- Traduzir textos, parafrasear parágrafos, elaborar resumos e buscar explicações adicionais;
- Revisar textos quanto a gramática e ortografia;
- Desenvolver esboços, roteiros, cronogramas e mapas mentais;
- Produzir imagens, vídeos, animações, composições musicais e apresentações;
- Traduzir textos para fins de pesquisa, desde que revisados e validados.
Práticas Proibidas
Por outro lado, algumas ações são expressamente proibidas, como:
- Submeter trabalhos gerados por IA sem uma declaração clara de sua origem;
- Cometer plágio, não citando adequadamente as obras que a IA utilizou;
- Utilizar IA em provas e avaliações sem a autorização do professor;
- Divulgar informações confidenciais ou protegidas por direitos autorais;
- Produzir desinformação ou simular resultados experimentais sem a devida transparência.
Além disso, há práticas que dependem da autorização do docente, como gerar partes específicas de trabalhos e a realização de tarefas em grupo, que devem ser discutidas previamente entre os integrantes.
Transparência e Crítica na Pesquisa
Um ponto crucial abordado pelo professor Denis Salvadeo, da Unesp, é a expectativa de que os alunos não se utilizem integralmente da IA na elaboração de seus textos. Segundo ele, esse recurso deve servir para corrigir erros e auxiliar na pesquisa, mas não substituir a construção do conhecimento do próprio aluno.
Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a discussão sobre as diretrizes para o uso de IA ganhou forma em um documento voltado para a pós-graduação. O professor Luiz Leduíno de Salles Neto ressaltou a necessidade de orientar a comunidade acadêmica sobre o uso ético dessas ferramentas, enfatizando que a transparência na utilização da IA é essencial.
Orientações da UFBA e UFC
A Universidade Federal da Bahia (UFBA) também lançou um guia que orienta alunos e professores sobre o uso responsável da IA. O documento estabelece que o professor deve estipular as regras para o uso das ferramentas em suas disciplinas e avaliar a interação dos alunos com as tecnologias. Adriano Peixoto, professor da UFBA, destacou que é fundamental que os alunos desenvolvam suas habilidades de pensamento crítico, em vez de simplesmente reproduzirem o conteúdo gerado pela máquina.
A Universidade Federal do Ceará (UFC) segue a mesma linha, proibindo o uso da IA para redigir seções importantes de trabalhos acadêmicos. A UFC também exige que os trabalhos sejam submetidos a sistemas para detectar o uso de IA, embora especialistas achem que esses métodos não são infalíveis.
A Importância do Letramento Digital em IA
A discussão sobre a aplicação da IA no ambiente acadêmico vai além das regras e diretrizes. Tadeu da Ponte, especialista em IA aplicada, argumenta que a mudança na cultura acadêmica é fundamental. Ele defende que a mentalidade deve evoluir, reconhecendo que a IA pode ser uma ferramenta poderosa e não apenas uma forma de preguiça entre os alunos.
Márcia Azevedo Coelho, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), complementa que é vital ensinar tanto alunos quanto professores sobre o uso adequado da IA. Ao invés de proibir seu uso, é necessário que as instituições promovam um ambiente onde o letramento digital em IA seja uma prioridade, assegurando que todos possam tirar proveito dessas tecnologias de forma ética e consciente.
