Uma Jornada Musical na Bahia
Na última segunda-feira (30), o telefilme baiano “Sonho de Arrocha” conquistou o público ao ser exibido na Tela Quente e no Cine BBB. A produção gira em torno de Biel, um garoto de 12 anos que sonha em se tornar um grande cantor de arrocha. No entanto, sua trajetória é marcada por desafios, especialmente dentro de sua própria família. A avó Joaquina e a mãe Rosa, temerosas devido a experiências passadas, se opõem à escolha do menino, lembrando-se do avô Humberto, que também era cantor, mas não obteve sucesso.
Determinada a seguir seu sonho, Biel se compromete a convencer sua família a apoiá-lo. Com seu inseparável amigo João, ele transforma o bairro da Ribeira, em Salvador, em seu palco de ensaios. A religiosidade é uma temática central na narrativa, uma vez que a família do protagonista é evangélica. O garoto, buscando inspiração, participa de um show de talentos da igreja, onde se descobre como cantor de arrocha gospel.
A Inspiração por Trás do Filme
O diretor e roteirista Marcos Alexandre, que cresceu em Vila de Abrantes, na Região Metropolitana de Salvador, compartilha que a ideia para o filme brotou de suas vivências pessoais. “Durante minha infância, o arrocha sempre esteve presente na minha vida. Então, pensei: ‘Por que não contar uma história em que o arrocha seja o protagonista?’ Quis que esse gênero musical fosse a força motriz da trama, visando retratar a vida de uma família negra e periférica de Salvador, com suas relações de sonhos e desejos”, esclarece Marcos.
A Ribeira foi escolhida como cenário para as filmagens. Segundo o cineasta, o ambiente se encaixou perfeitamente com a narrativa e os personagens. “É curioso que, durante as gravações, ouvimos muito arrocha tocando na praia, nas praças e nos carros. O clima do lugar trouxe vida à história”, relata.
Foco na Autenticidade
Uma das preocupações da equipe foi evitar estereótipos, buscando um elenco composto por atores baianos que se identificassem com seus personagens. “Na nossa produtora, valorizamos e reconhecemos os talentos locais, tanto na equipe técnica quanto no elenco”, enfatiza Marcos. A seleção do elenco foi rápida e contou com o apoio da Globo. O ator mirim Gui Nery, que interpreta Biel, foi uma das primeiras escolhas. “Gui, natural de Salvador e do bairro do Pau Miúdo, trouxe uma essência brincalhona e uma conexão com o arrocha, o que se encaixou perfeitamente no papel. Durante a seleção, ele cantou duas músicas de Nadson, O Ferinha”, destaca o diretor.
Entre a Música e a Fé
A igreja evangélica é outro aspecto fundamental da narrativa, coexistindo com o arrocha. O filme retrata a relação entre esses dois universos por meio do arrocha gospel, que combina elementos do gênero musical, muitas vezes considerado secular por algumas correntes religiosas, com o gospel, próprio dos cultos. Para Marcos, a escolha de abordar essa fusão musical reflete a realidade de muitas famílias negras periféricas, retratadas na película.
Dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo IBGE, indicam que o número de evangélicos no Brasil aumentou 5,2 pontos percentuais, passando de 21,6% para 26,9% da população entre 2010 e 2022. Apesar do crescimento das práticas evangélicas, o catolicismo continua sendo a religião predominante no país. O número de evangélicos que se consideram pretos também cresceu, saltando de 24% para 30% nesse mesmo período.
“O arrocha gospel já é uma realidade. Existem até shows evangélicos que reúnem diversos gêneros, incluindo samba, pagode, arrocha e forró. Mesmo que o arrocha seja visto por alguns como um gênero secular, ao compor letras que estabelecem uma conexão mais íntima com a louvação, a percepção muda”, reflete o diretor.
