Reflexões sobre a Decadência Cultural
No Velho Espanha Bar e Cultura, localizado no tradicional bairro dos Barris, o experiente jornalista Amaro Arakem trocava ideias com Simão Piedade, uma figura icônica no cenário cultural de Salvador. Conhecido por ser um dos últimos ‘flaneurs’ da cidade, Piedade, cuja trajetória é marcada por um niilismo crítico, expressava sua frustração com a realidade atual que sufoca a poesia e a beleza urbana.
Embora seja conhecido publicamente como Simão Piedade, seu nome de batismo é Simão Souza Pereira. No entanto, para os soteropolitanos, a identidade popular é que prevalece. Assim como Carybé, o renomado pintor, é mais reconhecido por seu nome artístico do que por seu nome real, Simão Piedade se tornou uma referência na cultura local, onde os nomes que ecoam nas ruas têm mais peso do que os cartoriais.
Amaro Arakem, com seu olhar crítico e sensível, iniciou a conversa em meio a goles de cerveja, um ritual que reforçava a intimidade entre eles. As questões levantadas foram profundas e reveladoras: “Como está o flanar por esta cidade?” Simão, com um semblante preocupado, respondeu: “Morreu. O surgimento dos shoppings e o aumento da violência transformaram o prazer de passear em um estado de apatia.”
As palavras de Piedade ecoavam a nostalgia de um tempo em que as ruas de Salvador fervilhavam de arte, debates poéticos e encontros sociais. O que restou agora, segundo ele, é um panorama desolador, onde a cultura e a estética foram enterradas sob a pressão do comércio e da criminalidade. “Não se pode mais andar pelo centro antigo sem sentir o peso dessa transformação”, lamentou o filósofo.
Uma comparação com os poetas do passado foi inevitável. Simão relembrou Godofredo Filho, que desfilava em seu linho branco como se estivesse em uma passarela, ao contrário do que se vê nos dias de hoje, onde a informalidade e a decadência se tornaram a norma.
Amaro, sempre provocativo, sugeriu que o que Piedade apresentava poderia ser visto como uma visão saudosista. No entanto, o filósofo esclareceu que não se trata de uma busca pelo passado, mas uma constatação da degradação que aflige a cidade. “A essência do pensador é a busca pela verdade. E o que observamos atualmente é a deterioração dos espaços que antes eram vibrantes”, enfatizou Piedade.
A Nova Realidade de Salvador
Os dois homens seguiram conversando enquanto caminhavam pelas ruas, constatando a transformação drástica do cenário urbano. O envelhecimento da cidade, com suas praças e monumentos agora ocupados por ambulantes e a falta de políticas efetivas, também foi um tema recorrente. “Infelizmente, nossas praças se tornaram acampamentos de moradores de rua, um reflexo de um descaso sistêmico”, ressaltou Simão.
Enquanto andavam, uma mulher se aproximou de Amaro, reconhecendo-o e expressando sua saudade dos encontros. Simão, no entanto, refletiu sobre a dificuldade de se fazer elogios nos dias de hoje, indicando uma mudança nas interações sociais. É um tempo em que até os gestos mais simples podem ser mal interpretados, e as relações se tornam mais frias.
Ao chegarem à Igreja e Convento de Nossa Senhora da Piedade, Piedade não pôde deixar de perceber a tristeza que o cercava. “Esta praça, que já foi um santuário de cultura e encontros, está cheia de pessoas abandonadas, enquanto o debate sobre a situação social continua a ser apenas retórica”, compartilhou com pesar.
A conexão entre a cidade e seus habitantes, que um dia foi vibrante, parece ter se perdido em meio aos desafios contemporâneos. “Caminhar por aqui era um prazer. Hoje, é um desprazer. A Piedade, onde muitos poetas deixaram suas marcas, agora é uma sombra do que era”, lamentou.
Uma Cidade em Transformação
O diálogo entre Amaro e Simão revela uma Salvador em transformação, onde o passado e o presente colidem. A presença da cultura e da arte parece estar cada vez mais ameaçada, e as questões sociais urgentes permanecem sem resposta. “Os governantes falam sobre o social, mas as mudanças concretas são raras. A cultura, a poesia, estão à mercê do descaso”, concluiu Piedade.
Os dois homens, antes de se despedirem, decidiram visitar o IGHB, um símbolo da resistência cultural da Bahia, e ali, esperavam encontrar um espaço que ainda abrigasse saberes e histórias. O que restava na memória? Seria a esperança de que, apesar de todas as dificuldades, a arte e a cultura ainda encontrariam espaço para florescer em Salvador?
