Cenário de Transformação no Esporte
No último sábado, 14 de fevereiro, o futebol brasileiro deu início a mais uma temporada. O Vasco, enfrentando um momento difícil, sofreu uma derrota de 1 a 0 para o Volta Redonda nas quartas de final do Campeonato Carioca. Durante a partida, a placa de substituição revelou a entrada de Rojas no lugar de Philippe Coutinho. O ídolo da torcida, que atravessava uma fase complicada, recebeu vaias de maneira contundente em São Januário, um momento inédito em sua carreira. Esse episódio marca o início de uma mudança significativa na trajetória do atleta. Apenas quatro dias depois, Coutinho anunciou sua saída do clube através das redes sociais, alegando estar “cansado mentalmente”.
“Ao caminhar para o vestiário, percebi que meu ciclo no clube havia se encerrado. Decidi não voltar para o banco para priorizar minha saúde mental”, explicou Coutinho em seu comunicado. A renovação de seu contrato, previamente planejada pela diretoria, não se concretizou, e o atleta deixou o Vasco sem compreender completamente como lidar com a turbulência pessoal e coletiva que enfrentava. Assim, ele se junta a uma lista crescente de esportistas que optaram por tomar medidas preventivas para evitar crises psicológicas.
Uma Tendência em Crescimento
Nos últimos anos, um número crescente de atletas e treinadores de diversas modalidades tem escolhido fazer pausas em suas carreiras – sejam elas curtas ou longas, repentinas ou planejadas – em prol de sua saúde mental. Personalidades como a tenista Naomi Osaka, a ginasta Simone Biles, o técnico Tite, e os surfistas Gabriel Medina e Tatiana Weston-Webb fazem parte dessa lista. Esses atletas estão cientes de que abrir mão de competir em momentos cruciais ou recusar propostas tentadoras, como o retorno de Tite ao Corinthians, é um ato de coragem e auto-cuidado.
Esse fenômeno também reflete um pequeno retrato da sociedade brasileira. Somente no ano passado, houve mais de 546 mil pedidos de afastamento do trabalho por questões de saúde mental, um aumento de 15% em relação a 2024, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O alto desempenho exigido na carreira esportiva, somado à pressão constante, cria um ambiente propício para o surgimento de casos de burnout. Raphael Zaremba, professor de Psicologia do Esporte na PUC-Rio, destaca que o crescimento das redes sociais intensifica essa pressão:
“O esporte tem um componente adicional em relação a outras ocupações. As redes sociais amplificam as opiniões e críticas, fazendo com que os atletas sintam essa pressão ainda mais forte”, analisa Zaremba, ressaltando a importância de cuidar da saúde mental no meio esportivo.
O Exemplo de Tatiana Weston-Webb
Sete meses após conquistar uma histórica medalha de prata para o surfe feminino brasileiro nos Jogos de Paris em 2024, Tatiana Weston-Webb identificou, com o auxílio de sua equipe de psicólogos, sinais de desgaste emocional. Em março do ano passado, a surfista decidiu interromper temporariamente sua carreira.
“No esporte de alto rendimento, somos ensinados a ser fortes o tempo todo. Porém, força também é saber quando parar”, reflete Tati ao GLOBO. “A pausa foi uma decisão consciente, resultado de um diálogo com minha equipe e minha psicóloga, que foi fundamental para que eu reconhecesse meus limites. Eu precisava me reconectar comigo mesma e cuidar de minha saúde mental antes que o desgaste se tornasse irreversível.” Durante esse período de respiro profissional, Tati se tornou mãe de Bia Rose, que nasceu no início de fevereiro.
“O surfe sempre foi minha paixão. Essa pausa não foi um recuo, mas um investimento na minha longevidade, tanto dentro quanto fora do esporte”, afirma. “A maternidade me trouxe uma nova perspectiva sobre equilíbrio e prioridade. Hoje, percebo que cuidar da mente é tão fundamental quanto treinar o corpo.”
A Importância do Diálogo
Naturalizar a conversa sobre saúde mental é um passo crucial. Zaremba cita o exemplo de Simone Biles, que enfrentou bloqueios e se retirou de várias competições nos Jogos de Tóquio em 2021. O ato de Biles foi emblemático e contribuiu para aumentar o debate sobre o tema. Ela retornou e conquistou quatro medalhas em Paris, três anos depois. Entretanto, é vital preparar os atletas desde a juventude para lidar não apenas com a pressão competitiva, mas também com os desafios periféricos como a fama, a mídia e as redes sociais.
“Se os atletas não são devidamente preparados desde cedo, é muito fácil que, em um momento crítico, sucumbam”, alerta Zaremba, que também ressalta que a necessidade de cuidar da saúde mental se aplica igualmente aos atletas consagrados. “O cuidado com a saúde mental deve ser uma constante na vida de um atleta.”
