Reviver a Memória das Festas de Largo
Dimitri Ganzelevitch, um francês que escolheu a Bahia como lar em 1975, dedicou boa parte de sua vida a observar e registrar as mudanças nas festas de largo da capital baiana. Em seu novo livro, “Saudade daquelas Barracas”, ele compartilha suas experiências ao longo de cinco décadas, ressaltando a efervescência das celebrações entre os anos 1970 e 1990. Nesse período, ele abriu uma galeria no Mercado Modelo, onde teve a oportunidade de testemunhar de perto o impacto cultural e econômico dessas festividades. “Logo que me estabeleci no Mercado Modelo, meu interesse pelas festas de largo começou a aflorar. Havia uma atmosfera vibrante na montagem das barracas, uma criatividade que tomava conta da cidade”, relembra Ganzelevitch.
Entre relatos nostálgicos e análises críticas, o autor destaca a estética única das antigas barracas, que tinham nomes próprios, fachadas elaboradas e uma forte conexão emocional com seus donos. Barracas como No Embalo, Carinhoso, Sultão das Matas, Iracema, Senhor dos Navegantes, Minha Vidinha, Top Model e Espigão, por exemplo, tornaram-se marcos na paisagem cultural de Salvador. “Essas barracas eram mais do que simples pontos de venda; elas tinham orgulho da sua identidade. Os barraqueiros nutriram uma relação afetiva com aqueles espaços”, completa.
A Transformação e o Perigo da Padronização
No entanto, o livro também traz à tona a preocupação com a padronização que começou nas décadas seguintes, alterando o visual característico das festas. Segundo o autor, essa mudança contribuiu para uma perda significativa da identidade cultural dos espaços. “As barracas perderam a beleza estética e a tradição que antes carregavam. Salvador, assim, perdeu uma parte de sua alma”, lamenta Ganzelevitch.
Além de evocar boas lembranças, a obra propõe uma reflexão sobre temas como pertencimento, tradição e os impactos da mercantilização e da publicidade desenfreada na cultura do verão em Salvador. “O mercantilismo sem consciência e a poluição visual estão devorando aquilo que transforma essas festas em um patrimônio cultural”, observa o autor, em um chamado à preservação da autenticidade que sempre caracterizou as festas populares.
Sobre o Autor e a Obra
Dimitri Ganzelevitch, que chegou a Salvador em maio de 1975, sempre teve uma forte atuação cultural no Centro Histórico da cidade. Ele criou galerias em locais emblemáticos, como o Pelourinho, a Ladeira da Barra e o Mercado Modelo, além de ter fundado a Associação dos Comerciantes do Mercado Modelo. Atualmente, mantém uma galeria no bairro Santo Antônio Além do Carmo, onde continua a celebrar a cultura baiana.
O livro “Saudade daquelas Barracas – Longing for those Lovely Stalls” é um projeto bilíngue, apresentando textos e fotografias que documentam não apenas uma época, mas uma tradição que faz parte da identidade baiana. Com 200 páginas e 84 fotografias, além de três desenhos de Carybé, a publicação promete ser uma homenagem à memória cultural de Salvador.
A obra será lançada no dia 25 de março de 2026, uma quarta-feira, às 17h, e certamente atrairá aqueles que desejam reviver e preservar as memórias das festas populares da Bahia.
