Desafios no Cenário Econômico e Estratégias da Casas Bahia
O ano de Copa do Mundo costuma ser propício para vendas de televisores, e a Casas Bahia espera aproveitar essa oportunidade, além do incremento de circulação de dinheiro em ano eleitoral. Contudo, a varejista enfrenta um cenário desafiador, com o aumento dos custos de frete devido à alta nos preços do petróleo, influenciada pela guerra no Irã, e uma política de concessão de crédito mais restritiva, em resposta ao crescimento dos índices de inadimplência. Renato Franklin, CEO do grupo, de 45 anos, acredita que não se pode acelerar as vendas sem cautela, especialmente considerando os obstáculos econômicos que se apresentam em 2026.
Recentemente, a companhia teve que lidar com novos casos de recuperação extrajudicial, como o do Grupo Pão de Açúcar e da Raízen. Em abril de 2024, a Casas Bahia também solicitou recuperação extrajudicial, acumulando dívidas de R$ 4,1 bilhões, mas conseguiu se recuperar em três meses, convertendo parte de suas dívidas em ações e reduzindo seu passivo para R$ 1,13 bilhão, conforme o balanço de 2025, revelado nesta quinta-feira (12). Mesmo com a reestruturação, o prejuízo da empresa quase triplicou em relação a 2024, alcançando R$ 2,98 bilhões devido a um evento não recorrente.
Recuperação e Futuro Promissor?
“O pior momento da Casas Bahia já passou”, garante Franklin. Desde 2023, ele tem liderado a varejista, que também é responsável pela marca Ponto Frio. O CEO menciona que a empresa está entre as menos alavancadas do setor varejista, com uma relação de 0,4 vez entre dívida líquida e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Essa comparação é significativa, considerando que a alavancagem no setor varia entre 2 e 3,5 vezes, com o GPA apresentando 2,4 vezes.
Apesar do cenário alentador de redução de endividamento, o resultado financeiro da Casas Bahia permanece complicado. O prejuízo de R$ 2,98 bilhões representa um aumento significativo em relação às perdas de R$ 1,04 bilhão no ano anterior. Franklin explica que a alta se deve a uma “baixa não recorrente de ativos fiscais diferidos” que totaliza R$ 1,45 bilhão. Isso indica que a empresa enfrenta riscos em ações judiciais de grande monta que podem afetar seus resultados futuros.
Medidas Prudentes e Vendas Responsáveis
Sem a influência desse evento não recorrente, o prejuízo ainda teria crescido 47%, atingindo R$ 1,5 bilhão. A provisão foi estabelecida para proteger a empresa de uma dívida de aproximadamente R$ 170 milhões do Pão de Açúcar, que perdeu uma disputa judicial ligada a débitos da época em que era sócio da antiga Globex, que hoje corresponde à Casas Bahia. O GPA incluiu essa dívida em seu processo de recuperação extrajudicial, anunciado na última terça-feira (10).
Franklin comenta que a empresa tem adotado uma postura conservadora. “Fizemos um ‘stress testing’ para simular cenários adversos. Se os juros não caírem ou a guerra afetar a inflação, precisamos estar preparados para as consequências nos próximos dez anos. Portanto, a preferência é por um crescimento responsável”, enfatiza. Em um contexto onde a inadimplência no cheque especial subiu de 12% no início de 2024 para 17% no final do ano passado, a cautela se torna ainda mais necessária.
Vendas Digitais e Novas Parcerias
As vendas no crediário representam 17% do total, enquanto as transações via cartão de crédito correspondem a 65%. Contudo, as compras realizadas por meio do Pix, que somam 23%, estão em ascensão. Franklin destaca que muitos consumidores preferem pagar à vista para obter descontos sempre que possível. A empresa também tem visto um aumento nas vendas online, especialmente após uma parceria com o Mercado Livre, firmada em novembro, que fez com que o e-commerce representasse 45,5% do faturamento total no último trimestre. No acumulado do ano, as vendas digitais representam 31% do total.
A companhia enfrentou desafios durante o período de festas, com reclamações de clientes devido a atrasos na entrega e problemas de pagamento a alguns vendedores do marketplace. Apesar disso, Franklin assegura que as questões foram resolvidas e que a empresa está focada em melhorar a experiência do cliente.
Perspectivas de Custo e Reestruturação Financeira
Com a guerra no Irã afetando os preços do petróleo e, consequentemente, dos fretes, o executivo prevê que um aumento nos custos será inevitável. “Qualquer elevação será repassada ao consumidor”, afirma. Em uma tentativa de gerenciar melhor suas finanças, a companhia anunciou a emissão de uma nota comercial de R$ 1,4 bilhão junto ao Bradesco, com vencimento em dois anos, como parte de uma estratégia para alongar passivos sem aumentar o endividamento.
Redução de Equipe e Mudanças Estruturais
A nova direção da Casas Bahia é guiada pelo Mapa Capital, uma gestora de investimentos formada por ex-executivos do Itaú BBA e da Rio Bravo. No ano passado, o Mapa adquiriu debêntures do Bradesco e do Banco do Brasil, convertendo-as em ações e reestruturando a dívida da companhia. Essa reestruturação gerou uma redução de aproximadamente R$ 230 milhões anuais em despesas financeiras e ajudou a preservar linhas de crédito com os bancos. Contudo, isso também resultou na diluição dos acionistas, incluindo a família Klein, fundadora da Casas Bahia, que viu sua participação reduzida para 14,5%.
Para Eugênio Foganholo, consultor da Mixxer Desenvolvimento Empresarial, embora a empresa tenha enfrentado consideráveis dificuldades, o futuro ainda é promissor. “A Casas Bahia precisa demonstrar sua capacidade de geração de lucro, algo que não está claro no momento”, conclui. Ele ressalta que a motivação do time de vendas, que outrora era conhecido por suas estratégias agressivas, mudou e a equipe foi reduzida de 46 mil para 35 mil colaboradores nos últimos cinco anos. Apesar desses desafios, a marca ainda mantém uma posição relevante no mercado brasileiro.
