Reflexões Necessárias sobre Racismo e Machismo no Esporte
Recentemente, o mundo do futebol foi abalado por episódios alarmantes que expõem mais uma vez o preconceito entranhado na sociedade. Vini Jr., estrela do Real Madrid, mais uma vez se tornou vítima de injúrias raciais, enquanto Gustavo Marques, zagueiro do Red Bull Bragantino, protagonizou uma lamentável entrevista ao tentar justificar o desempenho de uma árbitra com base em seu gênero. Além disso, torcedores da Portuguesa ofenderam Hugo Souza, goleiro do Corinthians, e um torcedor chileno foi preso por racismo durante a partida entre Bahia e O’Higgins, válida pela Pré-Libertadores, na Arena Fonte Nova.
Não se trata apenas de uma análise sobre marketing esportivo; é um desabafo. Uma indignação que clama por justiça e atenção às raízes da questão. “O futebol é apenas um recorte da sociedade.” Essa frase resume bem o que temos visto. Comportamentos preconceituosos não nascem no campo, mas sim fora dele, manifestando-se sob os holofotes das arenas esportivas. O problema é profundo e tem nome: preconceito, ignorância e falta de educação.
Vini Jr. já enfrentou repetidos ataques racistas, e o incidente contra o Benfica é apenas mais um na longa lista de “casos isolados” que parecem se repetir de forma constrangedora. Essas agressões não apenas ferem fisicamente, mas também atingem a alma e a dignidade do atleta. Para quem acompanha a trajetória de Vini, é evidente que essa luta começou desde cedo, quando ainda era um garoto negro buscando seu sonho. A diferença agora é que ele possui voz e coragem para se manifestar.
Um fato alentador é que, nos últimos tempos, parte do ecossistema do futebol começou a reagir de forma mais contundente. Figuras como Thierry Henry, Luisão, Lilian Thuram, Vincent Kompany e Rio Ferdinand têm se posicionado, exigindo responsabilidade e ação. Não é o suficiente, mas já representa um avanço. Os jogadores do Real Madrid, por exemplo, se manifestaram, e Kylian Mbappé foi claro ao afirmar que Gianluca Prestianni não deveria participar da Champions League, mudando lentamente a cultura em torno do tema.
No entanto, ainda há uma falta de representatividade nesse movimento. É fundamental que atletas, ex-atletas e treinadores brancos também se unam nesta causa. O combate ao racismo não pode ser uma luta solitária de quem sofre na pele a discriminação. A ausência de vozes nessa discussão é um silêncio ensurdecedor.
Racismo é uma chaga social. No Brasil, é crime, mas em muitos lugares ainda não é tratado com a severidade necessária. O futebol deve legislar sobre si mesmo, criando punições exemplares e efetivas para aqueles que praticam atos racistas, sem relativizações. Vale ressaltar que Prestianni não negou suas declarações, mas afirmou que não foi racista, demonstrando a normalização da desumanização de pessoas negras, algo que não pode ser tolerado.
A situação nas arquibancadas também é preocupante, onde torcedores, incluindo crianças, imitam macacos. É impossível pensar que essas crianças estão fazendo isso sozinhas. Essa prática é um reflexo de um comportamento que foi ensinado ou que passou despercebido por adultos que deveriam saber melhor. Essa conivência precisa ser enfrentada.
A recente entrevista de Gustavo Marques adicionou um novo nível de desconforto ao debate. Ao insinuar que o mau desempenho da árbitra Daiane Muniz estava ligado ao fato de ela ser mulher, o jogador expôs um preconceito que ainda permeia o futebol. A arbitragem feminina nas competições masculinas não é novidade. Profissionais como Ana Paula Oliveira e Edina Alves têm demonstrado competência e preparo, e desmerecer um árbitro por gênero é inaceitável.
Essa declaração de Marques é um sinal claro de que o preconceito ainda está oculto nos vestiários e nos bastidores do futebol. Assim, clubes, federações e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) precisam manter a vigilância e a responsabilidade, pois a luta contra o preconceito deve ser contínua e não apenas uma resposta a incidentes pontuais.
Chega de notas de repúdio que rapidamente caem no esquecimento. O futebol deve agir de maneira transformadora, começando pela formação de atletas. Se um jogador pode assinar um contrato profissional aos 16 anos, ele também deve ser submetido a programas de formação sobre racismo, gênero e cidadania, como parte de uma política educacional constante.
No final das contas, a questão vai além de produzir melhores jogadores; trata-se de formar seres humanos melhores. O futebol tem a responsabilidade de decidir que não há espaço para racistas e misóginos em sua esfera, caso contrário, será cúmplice silencioso de uma problemática que já extrapola os limites do aceitável.
Neutralidade sobre essa questão é conivência. A história não perdoa aqueles que optam por não se posicionar.
