O Que Está Por Trás dos Preços Altos do Chocolate
Apesar da queda significativa no preço do cacau, tanto no Brasil quanto nas bolsas internacionais, o consumidor ainda enfrenta custos elevados ao comprar chocolate nesta Páscoa. Dados recentes do IBGE revelam que, até a metade de março, a inflação do chocolate em barra e dos bombons aumentou em 24,8% nos últimos 12 meses. Essa discrepância entre o preço do cacau e o preço dos chocolates levanta perguntas sobre o que está causando essa diferença.
Na Bahia, por exemplo, os produtores de cacau estão recebendo, em média, R$ 167 por arroba, um valor que representa menos de um quarto do preço registrado em março do ano passado, que era de R$ 718, conforme informações da consultoria Mercado do Cacau. No Pará, a situação não é diferente: a indústria e os comerciantes pagam apenas R$ 9,50 pelo quilo do cacau, em comparação com R$ 44 no mesmo período do ano anterior.
Descompasso entre Preços do Cacau e Chocolate
Segundo Lucca Bezzon, analista de mercado da StoneX Brasil, essa diferença de preços ocorre porque as amêndoas utilizadas na produção dos chocolates desta Páscoa foram adquiridas quando o cacau ainda tinha preços recordes no mercado internacional. Atualmente, o cacau é negociado na Bolsa de Nova York por cerca de US$ 3 mil por tonelada, enquanto um ano atrás, esse valor chegava a US$ 8 mil.
A indústria de chocolate, como explica Bezzon, costuma realizar compras antecipadas de matérias-primas, geralmente entre seis a doze meses antes da produção. Para elaborar os chocolates desta Páscoa, as fabricantes chegaram a pagar entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos do cacau. Agora, com a redução do preço, esse valor caiu para aproximadamente US$ 3 mil, mas a indústria ainda não repassou essa economia ao consumidor.
Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Inteligência em Agronegócio, destaca que a indústria de chocolate, que enfrentou margens apertadas devido a um déficit global de cacau nos últimos anos, agora busca recuperar essas margens antes de repassar qualquer redução de preço aos consumidores. De acordo com ele, uma queda nos preços dos chocolates nas prateleiras pode ser esperada a partir do segundo semestre deste ano.
Quais Fatores Motivariam a Alta dos Preços?
O preço elevado do chocolate nas prateleiras ainda é consequência de uma queda acentuada na colheita de cacau no Brasil e nos principais produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, em 2024. Essas nações enfrentaram os efeitos do fenômeno climático El Niño, que trouxe secas e chuvas em horários desfavoráveis, além de pragas e doenças que afetaram a produção.
A indústria nacional utiliza principalmente amêndoas brasileiras para produzir chocolate, mas também importa uma parte significativa da matéria-prima, especialmente de países africanos, para atender à demanda. Em média, 80% do cacau utilizado é nacional, enquanto 20% é importado. Essa competição entre regiões de maior poder aquisitivo, como a Europa e os Estados Unidos, por um cacau africano escasso também contribuiu para o aumento dos preços no Brasil.
Perspectivas para o Mercado de Cacau
Ainda no ano passado, os preços do cacau começaram a cair para os produtores, especialmente após julho, devido à recuperação das colheitas no Brasil e em países africanos, segundo Carlos Cogo. O Itaú BBA também aponta que a produção mundial cresceu 11% na safra 2024/25, impulsionada por condições climáticas favoráveis tanto na África quanto na América do Sul. Essa tendência sugere uma nova alta na colheita deste ano.
As importações de cacau também aumentaram, facilitadas pela queda do dólar, contribuindo para a diminuição dos preços no campo. No entanto, Bezzon acredita que a redução dos preços se deve mais à falta de demanda do que a uma recuperação da produção. Essa alta nos preços do cacau forçou as indústrias a ajustarem suas fórmulas, reduzindo o tamanho das barras e substituindo a manteiga de cacau por outras gorduras e óleos.
Protestos dos Agricultores e Ação do Governo
A queda nos preços enfrentada pelos produtores gerou uma onda de protestos em várias regiões agrícolas. Em fevereiro, agricultores interditaram a BR 101 em Ibirapitanga, na Bahia, em protesto contra os baixos preços do cacau e as importações, exigindo maior controle do governo sobre a amêndoa importada. A resposta do Ministério da Agricultura foi a suspensão temporária da importação de cacau da Costa do Marfim, devido ao risco de introdução de pragas.
Segundo a administração pública, existe a possibilidade de que grãos de cacau da Libéria e de Guiné, que não têm autorização para exportação para o Brasil, estejam sendo misturados aos lotes da Costa do Marfim. Carlos Cogo comentou que a decisão do governo deve ser respeitada, mas reconheceu que essa ação reflete a pressão contínua do setor produtivo em busca de soluções para a queda dos preços no país.
