Fortunato Ortombina e sua Visão sobre a Ópera
Certa vez, ao investigar a história do capitão da seleção brasileira de 1958, Hilderaldo Bellini, o torcedor da Inter, Fortunato Ortombina, se deparou com um dado curioso: embora sua intenção fosse descobrir uma possível ligação com o compositor Vincenzo, oriundo de Catania, acabou descobrindo que a família do zagueiro tinha raízes no Vêneto. Ortombina, que assume a direção do Teatro Scala de Milão em 2025, é um nome significativo na cena cultural italiana. Sua experiência anterior no La Fenice, em Veneza, de 2017 a 2024, preparou-o para os novos desafios que enfrenta no icônico Scala.
O Scala não é apenas um teatro; é um símbolo da vida artística e política de Milão. Gerido por um conselho que inclui o prefeito, o Ministério da Cultura e a Câmara de Comércio, o Scala se transforma em um evento de Estado durante a abertura de sua temporada. As datas que celebram a Semana de Moda e o Salão do Automóvel, além de homenagens a instituições como o jornal “Corriere della Sera”, comprovam a relevância da casa no cenário cultural italiano.
Desafios e Expectativas para a Temporada 2026/27
Com um mandato até 2030, Ortombina herdou uma programação ambiciosa de seu antecessor, que inclui as grandiosas quatro óperas do ciclo “O Anel do Nibelungo”, de Wagner, sob a batuta da regente australiana Simone Young. Este ciclo, que foi um sucesso de público — especialmente com as performances de Camila Nylund como Brünnhilde e Klaus-Florian Vogt como Siegfried —, mostrou a força da música ao vivo. Contudo, a direção de McVicar, com suas escolhas visuais, dividiu opiniões.
Após a apresentação de “O Crepúsculo dos Deuses”, que encerrou a celebração das duas semanas do ciclo, Ortombina já anunciou as aberturas das futuras temporadas, trazendo obras como “Otello”, de Verdi, com o regente sul-coreano Myung-Whun Chung, e “Um Baile de Máscaras”, também de Verdi, que será dirigido pelo cineasta Luca Guadagnino. Embora ainda não tenha planos de reviver as obras do compositor brasileiro Carlos Gomes, ele expressou interesse na produção de “Salvador Rosa”, uma ópera de 1874 que aborda a vida de um personagem napolitano.
A Relação entre o Teatro e a Cidade
Sobre o desafio de manter um diálogo ativo entre o teatro e a cidade, Ortombina é categórico: “Nunca se deve desistir de tentar.” Ele ressalta que, apesar de não conseguir agradar a todos, o Scala é o teatro que ele mais conhece, tendo sido diretor artístico por duas décadas. Ele ainda acredita que a experiência ao vivo é insubstituível, mesmo em tempos onde as redes sociais dominam a cena cultural.
A Ópera na Atualidade
A relevância da ópera nos dias de hoje é um tópico fascinante. Ortombina considera que a ópera é a linguagem mais universal que existe, acessível a todas as civilizações. Para ele, não há quem nunca tenha ouvido uma nota de Puccini, e a obra-prima “Nessun dorma”, famosa na voz de Pavarotti, provavelmente já ecoou até nas florestas da Amazônia. Ele argumenta que as óperas são a base de muitas narrativas populares contemporâneas, influenciando cinema e televisão.
Ao abordar a necessidade de atualizar a experiência operística, Ortombina destaca a crescente demanda por experiências ao vivo. Ele observa que, mesmo com o aumento das narrativas disponíveis, o público ainda valoriza a qualidade das apresentações ao vivo. O Scala, segundo ele, oferece uma experiência única que ainda atrai espectadores, superando a concorrência de outras formas de entretenimento.
Futuro da Ópera Brasileira no Scala
Sobre o futuro da ópera brasileira no Scala, Ortombina enfatiza a importância de Carlos Gomes na cultura milanesa. Ele acredita que a história do Brasil e suas narrativas podem ser exploradas de maneiras inovadoras, talvez até contando histórias intrigantes, como a de Josef Mengele, que terminou seus dias no Brasil, um tema que poderia render obras cativantes.
Desafios e Riscos no Teatro
Por fim, ao ser questionado sobre os riscos que o teatro enfrenta em tempos de polarização política, Ortombina é pragmático. Ele menciona que, em teatros com uma longa tradição, a música sempre prevalece. Mesmo em meio a desafios, ele acredita que o diálogo e a sensibilidade do público podem guiar as decisões artísticas. Portanto, a música, com seu potencial transformador, continua a ser uma força poderosa e necessária nos dias de hoje.
