Reflexões sobre o Cenário Político da Bahia
A atual conjuntura política na Bahia revela complexidades que vão além das disputas eleitorais imediatas, ecoando nas relações com o poder central. O artigo de Rodrigo Daniel, que discute a postura de Lula em relação à candidatura de Jerônimo, levanta questões provocativas. É inegável a capacidade de Daniel como repórter e analista, habilidades que têm se destacado em seus textos sobre a política local.
Ademais, a leitura do livro co-autorado por ele, Vitor Hugo Soares e Victor Pinto, reforça a presença de talentos emergentes no jornalismo político, fazendo com que suas análises sejam cada vez mais relevantes. Embora a percepção apresentada por Daniel seja perspicaz, algumas expressões podem soar exageradas, como a ideia de que Lula estaria desinteressado pela candidatura de Jerônimo.
É compreensível que, em um contexto onde a prioridade seja a eleição do Senado, Lula possa, se necessário, optar por sacrificar Jerônimo em favor de uma chapa mais forte. Isso contrasta com a dinâmica de 2022, onde a divisão de esforços não trouxe os resultados esperados. No entanto, a real posição do PT na Bahia e o desejo do partido por uma unidade em torno da candidatura senatorial ainda precisam ser clarificados. Se a vitória for do Senado, o desafio será acomodar os interesses da base, especialmente se a máquina estadual não estiver disponível para todos os que dela dependem.
A situação se complica quando se considera a estratégia do PSD, que, sob a liderança de Guilherme Kassab, passa por um momento decisivo. A filiação de Ronaldo Caiado, conhecido por sua postura política firme, pode ser vista como uma manobra arriscada, considerando que o PSD se destaca por buscar alianças mais flexíveis. Entretanto, na Bahia, esse movimento pode retirar ACM Neto do eixo de um acordo pré-estabelecido com o PL, permitindo ao PSD angariar apoio significativo para Ratinho Jr., o que é crucial para Neto ao evitar associações indesejadas com figuras controversas como Flávio Bolsonaro.
Vale ressaltar que um bom acordo é aquele que satisfaz todos os envolvidos. Se essa aliança for firmada, é essencial que as agendas de ACM Neto e Kassab sejam consideradas, já que cada um busca objetivos distintos: enquanto Neto mira a governança do Estado, Kassab busca fortalecer a presença do PSD nas próximas eleições nacionais.
Consequentemente, Kassab pode optar por permitir que o PSD baiano se posicione de maneira mais independente nas disputas estaduais e federais, buscando alinhar os esforços de Oto Alencar e Angelo Coronel. Essa estratégia visa evitar uma fragmentação prejudicial ao partido na corrida pela Câmara e garantir que a legenda não se feche completamente em torno de Lula.
Sobre o Senado, que é uma prioridade para Lula, a presença de Coronel pode ser vista como um obstáculo. Porém, Kassab e Neto parecem não acreditar na reeleição de Coronel, que, por sua vez, busca não apenas assegurar sua posição, mas também explorar possibilidades mais vantajosas, seja no Executivo Federal ou em uma chapa que lhe ofereça maior destaque e autonomia em um próximo governo.
