A crise de refugiados na Bahia e a invasão dos EUA na Venezuela
A recente invasão dos Estados Unidos na Venezuela trouxe à tona novas incertezas para a América Latina, intensificando discussões sobre os impactos regionais de conflitos internacionais. A situação reforçou a necessidade de uma reflexão aprofundada sobre a política de refugiados na Bahia, um estado com um histórico significativo de acolhimento a migrantes venezuelanos, mas que carece de uma estrutura pública sólida para lidar com novos fluxos migratórios.
A análise foi realizada por Mariângela Nascimento, cientista política e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), em uma entrevista ao Aratu On. Segundo ela, entre 2018 e 2019, a Bahia se destacou como um dos estados brasileiros que mais recebeu venezuelanos, um fenômeno impulsionado pela grave crise econômica e pelo desemprego que assola o país vizinho. Embora muitos desses migrantes tenham conseguido encontrar oportunidades de trabalho nos setores de comércio, serviços, agricultura e educação, a permanência no estado não foi garantida. Muitos acabaram deixando a Bahia ou retornando para a Venezuela, motivados pelo alto custo de vida e pela instabilidade no mercado de trabalho.
Desafios enfrentados pelos venezuelanos na Bahia
A maioria dos refugiados que chegou à Bahia durante aquele período participou da Operação Acolhida, uma iniciativa do governo federal com apoio de organizações internacionais. Os novos chegados foram, em grande parte, encaminhados para Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, mas logo enfrentaram desafios. Mariângela Nascimento aponta que houve falhas na coordenação com o poder público municipal e, em decorrência disso, muitos migrantes foram alojados em áreas vulneráveis, sem políticas adequadas de acolhimento.
Embora alguns refugiados tenham conseguido emprego, principalmente em unidades dos Correios, essa relação de trabalho se mostrou insustentável ao longo do tempo. Com a diminuição do apoio inicial de organizações internacionais, muitos migrantes se viram obrigados a procurar soluções por conta própria, resultando na saída de uma parte significativa deles do estado.
Dados da Prefeitura de Lauro de Freitas, de 2022, indicam que 78 famílias migrantes e refugiadas residiam no município. Desses, cerca de 80% chegaram através da Estratégia de Interiorização do governo federal, com o suporte da Organização das Nações Unidas (ONU) e do setor privado. Os bairros mais procurados para moradia foram Areia Branca, Jambeiro e Capelão.
De acordo com Mariângela, a experiência dos últimos anos ilustra um problema na efetivação das normas de apoio aos refugiados. “Existem ações voluntárias e iniciativas pontuais, mas falta uma política pública consolidada. A questão dos refugiados deve ser tratada como uma política de Estado”, enfatiza a professora.
Perspectivas geopolíticas e a situação atual
Embora o Brasil tenha uma Lei de Refugiados e um plano nacional de política migratória, a implementação real dessas normas ainda é frágil, especialmente em nível local. Mariângela também alerta para as complexas questões geopolíticas que envolvem a América Latina. Ela observa que a migração, cada vez mais presente no século XXI, é impulsionada não apenas por guerras, mas por fatores como empobrecimento e desemprego. “Os venezuelanos, na maioria, não são refugiados políticos clássicos. Eles fogem da miséria e da falta de perspectivas”, explica.
No que diz respeito ao fluxo migratório futuro, a especialista avalia que, no momento, não há indícios claros de um aumento significativo no número de refugiados venezuelanos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já declarou não estar em guerra com a Venezuela, mas as incertezas em torno de possíveis intervenções externas e suas consequências para a soberania dos países latino-americanos geram preocupação.
A análise de Mariângela leva em conta o histórico de intervenções norte-americanas em outras nações, onde discursos sobre combate ao terrorismo e promoção da democracia muitas vezes escondem interesses geopolíticos e econômicos, como a busca pelo controle de recursos naturais. A dinâmica envolvendo blocos como o BRICS e a influência da China e Rússia na região também fazem parte dessa complexa situação.
A postura do Brasil frente à crise venezuelana
Na visão da professora da UFBA, a reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à situação internacional da Venezuela foi correta, ao condenar qualquer tipo de intervenção externa. Apesar do recente ataque dos Estados Unidos, que resultou na morte de diversas pessoas e na captura do presidente Nicolás Maduro, o Exército Brasileiro afirmou que a situação na fronteira continua sob controle, com patrulhamento normal em Pacaraima, Roraima, sem registros de incidentes.
A invasão dos EUA, que ocorreu na madrugada de um sábado, foi anunciada por Trump por meio de sua plataforma Truth Social, surpreendendo muitos na comunidade internacional. Fontes indicam que o planejamento da operação foi desenvolvido ao longo de meses e envolveu ensaios detalhados. As tropas americanas, incluindo a Delta Force, foram responsáveis pela execução da missão, que visava a captura de Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Com essa situação em constante evolução, é crucial que a Bahia e o Brasil como um todo reflitam sobre as implicações da crise venezuelana e a necessidade de políticas mais eficazes para o acolhimento de refugiados.
