O Impacto da Inteligência Artificial na Cultura
O escritor, economista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Armando Avena, está prestes a lançar seu novo livro, intitulado ‘A Modernidade Caiu na Rede: A arte, a cultura e a economia no mundo da inteligência artificial’. O evento acontecerá nesta quinta-feira, 23, às 17h, na varanda do Amado Restaurante, localizado no Shopping Salvador. A obra, que já teve um pré-lançamento na Bienal do Livro da Bahia, promete instigar reflexões profundas e controversas sobre o papel da tecnologia na sociedade atual.
Em uma entrevista ao portal A TARDE, Avena destacou um dos principais riscos que a inteligência artificial (IA) apresenta: a possibilidade de se tornar cada vez mais difícil distinguir entre criações humanas e sugestões geradas por algoritmos. Ele afirma que “esse é o grande risco que enfrentamos quando falamos de IA, especialmente nas esferas cultural e artística”.
Conforme o autor, a presença da inteligência artificial se amplia em diversos setores, incluindo a indústria, saúde, finanças e logística. Contudo, ele enfatiza que, enquanto a IA ainda depende de instruções humanas, este cenário está mudando rapidamente: “A IA generativa está aprendendo a funcionar de forma autônoma, o que levanta uma questão fundamental: será que chegaremos a um ponto em que a presença humana se tornará desnecessária?”
Avena levanta uma preocupação ainda mais grave: a IA já é capaz de criar arte, escrever textos, compor músicas e reproduzir estilos de diversos artistas. Isso gera um debate sobre a originalidade e a questão da autoria, uma vez que as criações da IA se baseiam em um vasto repertório de obras humanas.
Pensadores Clássicos e a Modernidade Digital
O livro de Avena começa a traçar seu raciocínio a partir de referências de pensadores clássicos como Charles Baudelaire e Karl Marx, conectando suas ideias com a realidade tecnológica contemporânea. O autor argumenta que a modernidade, como entendida no século XIX, “caiu na rede”, dando origem a uma nova configuração social que redefine como vivemos e interagimos.
“A vida, hoje, é cada vez mais expressa no Instagram, no Tik Tok e nas redes sociais. O verdadeiro sentido de realização parece estar ligado à validação nas redes, onde a interação através de likes se tornou primordial”, afirmou Avena durante a entrevista.
Para ele, é nas plataformas digitais que se observa a vida em sua plenitude, com debates sobre temas variados, como política, arte e cultura. Contudo, essas redes também se tornaram um espaço de desinformação e farsa. “Estamos vivendo um momento em que as redes sociais transformaram a vida cotidiana em um negócio”, acrescentou.
Avena também critica a dinâmica atual, onde os indivíduos estão constantemente gerando conteúdo e movimentando suas vidas em um ciclo contínuo de produção: “Antigamente, o trabalho era delimitado às fábricas. Hoje, a maior parte da produção se trasladou para as redes sociais, onde as pessoas criam conteúdo incessantemente, gerando lucro para as grandes empresas de tecnologia”.
Esse cenário aponta para uma monetização da própria vida, onde interações pessoais, lazer e até mesmo o amor se tornaram parte de uma lógica de negócios. “As big techs agora controlam esse fluxo, e temos que nos perguntar: até que ponto isso é saudável?”
Marx e Dante em Diálogo com a Atualidade
Avena propõe uma conversa entre figuras históricas como Karl Marx e Dante Alighieri, relacionando suas ideias com a atualidade. Ele acredita que Marx, com sua análise crítica da produção, teria muito a contribuir para a discussão contemporânea sobre conhecimento e produção cultural. “Quem ler ‘A Modernidade Caiu na Rede’ perceberá que ele antecipou muitos dos desafios que enfrentamos hoje”, comentou o autor.
Além disso, Avena utiliza a figura de Dante para explorar a transição da direita liberal para uma postura mais antiliberal, em uma análise que busca compreender o contexto atual através de uma lente literária. “O objetivo do livro não é ser um tratado acadêmico, mas sim uma obra que provoque discussões sobre os temas que moldarão o futuro da humanidade”, destacou.
Ao ser questionado sobre como utilizar a tecnologia sem que ela controle a subjetividade humana, Avena enfatizou a importância de um diálogo contínuo entre academia, sociedade e pensadores. “O poder da IA generativa é imenso e pode redefinir nossas formas de viver. Portanto, é crucial discutir se estamos criando um cenário onde a capacidade humana de imaginar e criar pode ser desvalorizada”, finalizou.
Sobre Armando Avena
Armando Avena é autor de 12 livros e um nome respeitado na academia, atuando como professor-doutor na UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia. Seu trabalho inclui obras como ‘Luiza Mahin’, ‘Maria Madalena: O Evangelho Segundo Maria’, e ‘O Afilhado de Gabo’. Destaca-se também por seu livro ‘O Manuscrito Secreto de Marx’, finalista do Prêmio Machado de Assis em 2012.
