Um Ícone da Cultura Afro-Brasileira
Se a visita a Roma é incompleta sem encontrar o Papa, chegar à Roma Negra exige cruzar os portões da Senzala do Barro Preto, que abriga o Ilê Aiyê. Fundado em 1974 por Antônio Carlos “Vovô” e Apolônio de Jesus, no terreiro de Mãe Hilda Jitolu, o bloco afro é, sem dúvida, uma das mais lindas expressões culturais da Bahia, como atesta sua famosa canção.
Hoje, o Ilê transcende a sua identidade como um simples bloco de carnaval; tornou-se uma organização social com laços profundos na comunidade local. A instituição mantém viva a proposta radical de seus fundadores: promover um espaço de resistência contra o racismo e afirmar a cultura africana, destacando a música, as danças e as vozes dos negros baianos.
A sede, que ocupa uma área de mais de 5.000 m², já não se assemelha à primeira edificação, o Ilê Axé Jitolu, mas as deusas que ali habitam continuam firmes. Há 45 anos, durante o caloroso verão da capital baiana, ocorre a disputa entre 15 mulheres pelo título de Deusa do Ébano, a representante oficial do Ilê. Esse concurso é um espetáculo vibrante, repleto de panos coloridos, coreografias que pulsando ao ritmo dos tambores e letras que ecoam a luta antirracista, reafirmando que a ancestralidade está sempre pronta para encantar as multidões no salão principal.
Poder e Transformação Cultural
No último sábado, ao chegar ofegante ao topo da Ladeira do Curuzu para a Noite da Beleza Negra, testemunhei essa vivência intensa. Além disso, o antropólogo Michel Agier, que conduziu um trabalho de pesquisa entre Paris e Salvador por três décadas, lançou em 2024 o livro “Ilê Aiyê: a fábrica do mundo afro”. A obra revela como as mudanças urbanas e econômicas em Salvador, juntamente com a força crescente do movimento negro no Brasil, foram cruciais para o surgimento desse fenômeno cultural. O frescor do Ilê não provém apenas da ousadia em criar um desfile de negros em uma cidade que frequentemente se mostrava predominantemente branca nas fotos oficiais, mas também da habilidade de reinventar significados associados a categorias historicamente carregadas de preconceito.
Uma única apresentação do grupo é suficiente para alterar a percepção que se tem do Brasil, da Bahia, da África, da negritude e dos orixás. No Ilê, conceitos frequentemente discutidos, como empoderamento feminino, moda, racialidade, envelhecimento, diversidade e gênero, ganham nova vida e relevância. É uma estratégia, uma forma de fazer política e uma tecnologia do saber.
No discurso do Vovô do Ilê, em entrevista ao BahiaCast, ele destaca: “Essas coisas que vieram contra a gente, a gente manda de volta de forma positiva”. Essa frase encapsula a essência do Ilê Aiyê.
Ressignificação da Identidade Negra
Enquanto o senso comum frequentemente associa a África à pobreza, no Ilê essa narrativa é completamente transformada. O continente é visto como uma fonte de poder e criatividade. Em contraste aos concursos de Miss Brasil, onde as mulheres são reduzidas a estereótipos, no evento Beleza Negra, elas se tornam símbolos de autoestima e consciência política. A senzala, que historicamente foi um espaço de dor e exclusão, na verdade se transforma em um centro de aprendizado, diversão e pertencimento. Se antes o termo “moreno” era um eufemismo pejorativo para referir-se a pessoas de pele escura, no Curuzu, essa expressão é percebida como alienante. Todos ali se orgulham de serem negões. E, em um contexto onde o racismo busca desumanizar os negros, no Ilê Aiyê, eles emergem como verdadeiros deuses, protagonistas da beleza.
