Conexão entre o Passado e o Futuro na Bahia
Com uma população superior a 11 milhões de habitantes, aproximadamente 80% dos baianos são negros, conforme revela o Censo de 2023 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa negritude, que se manifesta nas ruas, na culinária, nas artes e na linguagem, molda a dinâmica social da Bahia de maneira indissociável, embora as narrativas culturais e históricas do Brasil ainda não a explorem de forma ampla.
No dia 24 de janeiro, quando se celebra o Dia Mundial da Cultura Africana e Afrodescendente, o Bahia Notícias fez uma visita a dois espaços na capital baiana que preservam a memória histórica e cultural da diáspora africana na Bahia, ao mesmo tempo que promovem a criação de artistas e estudiosos negros.
Casa do Benin: Um Espaço de Memória e Criação
A jornada cultural começou na Baixa dos Sapateiros, uma área do Centro Histórico, considerada um dos mais relevantes centros culturais e comerciais de Salvador, conforme lembrou Ary Barroso nos anos 50. Entre os casarões da região, destaca-se a Casa do Benin, localizada na rua Padre Agostinho Gomes. Este espaço exibe uma coleção diversificada de telas, esculturas e artefatos que celebram a conexão entre Salvador e o continente africano.
Pesquisa da The Trans-Atlantic Slave Trade Database, disponível no site Slave Voyages, indica que cerca de metade dos africanos escravizados no Brasil entre 1574 e 1856 embarcaram em portos de Angola e da Costa da Mina, que hoje corresponde ao Benin, Togo e Gana. Esta migração forçada de mais de 1,5 milhão de pessoas deixou marcas profundas na cultura e sociedade brasileiras, especialmente na Bahia.
Inaugurada em 1988 sob a liderança de Gilberto Gil na Fundação Gregório de Mattos, a Casa do Benin se destaca por mesclar um vasto acervo de aproximadamente 200 peças colecionadas pelo fotógrafo francês Pierre Verger, oriundas do Golfo do Benin, com exposições de artistas contemporâneos. Com isso, a Casa do Benin busca traçar um paralelo entre o passado e o futuro da cultura afrodescendente.
O gestor Igor Tiago, que atua como produtor cultural e curador do espaço, explica que a Casa do Benin surgiu como uma extensão do projeto ‘Fluxos e Refluxos’, de Pierre Verger, que explora os trânsitos atlânticos das pessoas escravizadas. Tiago afirma que, na criação da Casa do Benin, houve uma intenção de promover um intercâmbio cultural com a Casa do Brasil, em Ouidah, no Benin, dando espaço para trocas artísticas e culturais entre estudantes e artistas dos dois países.
O MUNCAB: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira
A poucos passos da Casa do Benin, encontra-se o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), localizado na rua do Tesouro. Reinaugurado em 2023, o museu resgata a memória e a cultura negra, relembrando a riqueza da negritude na história brasileira. O Muncab, que ocupa dois edifícios históricos, apresenta um acervo diversificado, com obras de artistas brasileiros, africanos e afro-diaspóricos.
A diretora geral do Muncab, Cíntia Maria, e a curadora Jamile Coelho enfatizam que o museu não se limita a contar a história do passado, mas também se dedica a explorar a arte contemporânea e as questões da diáspora africana. Jamile menciona que o Muncab busca romper com a ideia de uma “África imaginária”, promovendo um diálogo vivo sobre a cultura contemporânea e a ancestralidade africana.
Jamile observa que a reabertura do Muncab representa não apenas a ressignificação de um espaço, mas também uma proposta de devolver à sociedade um espaço de diálogo e reflexão sobre a experiência afrodescendente no Brasil. “O tesouro brasileiro é a memória africana e a memória da diáspora africana”, conclui.
Acessibilidade e Educação Antirracista
Ambas as instituições têm se comprometido com a democratização do acesso e a promoção da educação antirracista. Na Casa do Benin, Igor Tiago destaca a importância de receber estudantes e grupos universitários, onde se realizam atividades educativas que abordam a cultura afro-brasileira, alinhadas com a Lei nº 10.639/2003, que assegura o ensino da história e cultura afro-brasileira nas escolas.
No Muncab, a democratização é uma prioridade, garantindo visitação gratuita em dois dias da semana e acesso facilitado a grupos públicos e instituições sem fins lucrativos. Cíntia Maria afirma que o museu se compromete com a acessibilidade física e comunicacional, fornecendo recursos como cadeiras de rodas e intérpretes de libras para atender a todas as necessidades do público.
As gestoras concordam que os museus não são apenas instituições culturais, mas espaços de resistência e reafirmação da identidade negra. “Esses locais são fundamentais para reanalisar a história da escravização e fortalecer a autoestima da população negra”, finaliza Jamile.
