Entrevista com Cláudio Lottenberg sobre Saúde e Autocuidado
A saúde no Brasil e em diversas partes do mundo é marcada por um dilema: enquanto a medicina avança com tecnologias inovadoras e tratamentos sofisticados, o cotidiano ainda carece de práticas de prevenção e autocuidado. Essa constatação foi o ponto de partida para uma profunda reflexão do médico Dr. Cláudio Lottenberg durante uma entrevista ao programa Cessar-Fogo, apresentado por Alex Solnik. Lottenberg, um renomado oftalmologista e líder vinculado ao Hospital Israelita Albert Einstein, destaca que a sociedade é frequentemente treinada para responder a doenças, em vez de adotar hábitos que promovam a saúde diariamente.
Durante a conversa, Lottenberg enfatiza a necessidade de ensinar desde cedo a importância do autocuidado, abordando a dimensão cultural que envolve o tema. “Nós, de fato, não somos pessoas que somos direcionados a tomar conta da nossa própria saúde”, afirma ele, sublinhando que a forma como a saúde é discutida muitas vezes desloca responsabilidades. Ele menciona o princípio constitucional que estabelece a saúde como um dever do Estado e um direito do cidadão, mas critica a ideia de que a saúde deve ser exclusivamente responsabilidade do governo. “Na realidade, a saúde deveria ser um dever do cidadão”, defende, ressaltando que descuidar da saúde individual tem um impacto financeiro sobre a sociedade.
Lottenberg também refuta a crença de que a tecnologia é a solução mágica para os desafios da saúde. Embora reconheça que inovações tecnológicas mudaram a medicina — desde termômetros até exames complexos —, ele argumenta que não é isso que resolve os problemas mais relevantes do dia a dia, que envolvem a formação de hábitos saudáveis e a prevenção de doenças. “A tecnologia serve em momentos agudos, mas não necessariamente ajuda na cronificação de doenças”, afirma o médico, acrescentando que os profissionais de saúde frequentemente não são treinados para orientar sobre alimentação e atividades físicas. Em sua perspectiva, isso perpetua uma cultura de consumo de procedimentos em vez de fomentar a construção de uma verdadeira cultura de saúde.
Para Lottenberg, é essencial mudar o paradigma que associa saúde apenas à ausência de doenças. “Cuidar da vida não é cuidar da doença; cuidar da vida é cuidar da vida”, resume. Essa mudança implica em investir em práticas simples e contínuas, além de repensar o que significa ter um bom sistema de saúde. Ele contesta a ideia de que excelência na saúde se baseia em altos investimentos, grandes hospitais ou equipamentos caros, e cita o exemplo dos Estados Unidos para ilustrar que altos gastos nem sempre se traduzem em melhores indicadores de qualidade de vida.
Ao abordar o papel do governo e a importância da educação na saúde pública, Lottenberg recorre à sua experiência na Secretaria de Saúde de São Paulo. Ele afirma ter aprendido a valorizar as virtudes do sistema público, que muitas vezes são subestimadas. “O Sistema Único de Saúde (SUS) é uma grande conquista”, declara, ressaltando que o sistema foi fundamental para mitigar os impactos da pandemia. O médico acredita que há um vasto potencial para atuação em saúde que não depende apenas de grandes orçamentos, mas sim de estratégias eficazes e educação preventiva, enfatizando: “A perspectiva educativa tem um impacto importante”. Ele também destaca como fatores sociais podem influenciar diretamente na saúde das pessoas, indicando que a eliminação de aspectos relacionados à pobreza poderia trazer melhorias significativas.
Sobre modelos de gestão e as disputas políticas que cercam o setor de saúde, Lottenberg defende que o debate deve ser centrado no paciente e na qualidade de vida, e não em ideologias. “Não podemos permitir que a saúde seja utilizada como um instrumento político. É necessário fazer política para a saúde”, observa. Ele cita o exemplo da Bahia, um estado que abriga várias organizações sociais de saúde, incluindo uma parceria com o Hospital Albert Einstein, desafiando a visão de que esses assuntos estão atrelados a interesses de partidos políticos.
Durante a entrevista, Lottenberg também aborda a questão da regulação e os interesses econômicos associados ao tabaco e ao álcool. Ele discute como as estratégias comerciais normalizam comportamentos prejudiciais, reconhecendo a dificuldade de enfrentar a dependência química e os lucros exorbitantes dessas indústrias. Sobre restrições ao fumo, ele destaca que medidas como as implementadas por José Serra ajudam a impor limites, alertando para o surgimento de novos desafios, como o cigarro eletrônico, que representa riscos à saúde. O médico defende que profissionais da saúde ocupem espaços públicos de comunicação para combater a desinformação.
Na continuidade da conversa, o uso medicinal da cannabis também foi abordado. Lottenberg ressaltou a importância de um rigor científico nas discussões, sem idealizações. Ele criticou a noção de que a cannabis não causa danos, alertando para possíveis efeitos em áreas como atenção e memória. No entanto, também reconheceu que há indicações médicas promissoras para condições como epilepsias refratárias e dores crônicas. Para ele, o Brasil tem um grande potencial para a pesquisa clínica, embora ainda enfrente desafios nesse campo.
Lottenberg finalizou a entrevista ressaltando a relação do Hospital Einstein com o SUS, destacando sua visão de que é possível oferecer um atendimento de alta qualidade também no sistema público. Ele mencionou várias unidades em São Paulo que atendem pela rede pública e defendeu uma abordagem humanizada no atendimento. “O respeito e a empatia são essenciais na prática médica, e isso não é ensinado em livros”, concluiu, reforçando a importância da construção de um ambiente colaborativo onde divergências geram respeito e contribuem para um mundo melhor.
