Identidades Culturais em Risco
Waldeck Ornélas, renomado especialista em planejamento urbano e autor da obra ‘Cidades e Municípios: gestão e planejamento’, analisa a situação das colônias estrangeiras na Bahia. Segundo ele, essas comunidades, que têm sido parte fundamental da história local, agora enfrentam o desafio da assimilação, resultando na perda de suas identidades e instituições simbólicas. O Clube Português e o Hospital Espanhol, por exemplo, já não fazem mais parte do cenário cultural da cidade, enquanto o Clube Espanhol encontra formas de se modernizar e se manter ativo.
O Hospital Português, por outro lado, permanece como um dos principais equipamentos de saúde na capital baiana. Entretanto, instituições que outrora foram referência, como o Galícia Esporte Clube, o primeiro tricampeão baiano, e a Associação Cultural Caballeros de Santiago, perderam seu protagonismo ao longo dos anos. A Casa d’Itália, tradicional centro cultural, acaba de colocar à venda sua magnífica sede, situada ao lado do Palácio da Aclamação, que dará espaço ao novo Centro Cultural Banco do Brasil.
A Conexão com a Cultura Africana
Em relação às colônias africanas, como a Casa do Benin, localizada no Pelourinho, e a Casa de Angola, na Baixa dos Sapateiros, falta o dinamismo necessário que poderia ser beneficiado por uma maior aproximação das respectivas embaixadas. Apesar de ter sido restaurado, o Cemitério Inglês, na Ladeira da Barra, carece de atividades que promovam a cultura inglesa na região. O acervo de pintores britânicos, que compõe o antigo Museu Regional de Feira de Santana, hoje parte da Universidade Estadual de Feira de Santana (UESF), é uma importante lembrança dessa conexão, mas ainda sim, a presença dessa cultura na Bahia é bastante limitada.
Eventos como o Festival de Cultura Japonesa e a Festa de São Genaro, embora realizadas anualmente, são manifestações culturais efêmeras que não contribuem para a preservação das heranças culturais. Elas se perdem no meio do ciclo intenso de festas populares que dominam a cidade, sem deixar um legado duradouro.
A Necessidade de Ações Concretas
Para que a memória cultural das colônias estrangeiras não se apague, é urgente a criação de marcos físicos e atividades permanentes que celebrem essas culturas. Curitiba, por exemplo, se destaca como um modelo a ser seguido. A cidade homenageou cada uma de suas colônias estrangeiras, estabelecendo praças e espaços que valorizam a diversidade cultural. A ausência de uma Praça Galícia em Salvador, considerando a significativa migração de galegos, é algo que merece reflexão. A Xunta da Galícia, com certeza, aceitaria um pedido para a doação de um monumento que representasse a ligação dos galegos com a cidade.
Enquanto isso, Portugal não mantém a mesma política em relação às suas colônias, ao contrário do que faz a Espanha, que ajudou a recuperar o Centro Histórico de Quito, no Equador. É evidente que o Brasil, especialmente Salvador, precisa de ações em larga escala para revitalizar e manter ativa a memória portuguesa na cidade.
Preservação do Patrimônio Religioso
Além das manifestações culturais, marcos religiosos também enfrentam riscos. O recente desabamento do teto da Igreja do Convento de São Francisco é um exemplo alarmante do estado de degradação destas instituições. A precariedade da Ordem Terceira do Carmo é outro caso que chama a atenção. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) precisam adotar uma postura mais proativa para garantir a preservação dessas importantes edificações. A Igreja Católica, através da sua Pastoral do Turismo, pode desempenhar um papel crucial, mobilizando diferentes congregações para proteger o patrimônio artístico e imobiliário, que muitas vezes é alvo de roubos.
Por fim, mais do que políticas de editais, é necessária uma ação coordenada entre a prefeitura e as colônias estrangeiras em Salvador. Essa colaboração é fundamental para resgatar, enquanto há tempo, os valores culturais que essas comunidades trouxeram para a cidade, promovendo a valorização de um patrimônio cultural e social diversificado.
