Pesquisa Datafolha e o impacto da Operação Compliance Zero
A pesquisa Datafolha contratada pela Folha de S.Paulo para avaliar a corrida presidencial de 2026 chega à divulgação nesta sexta-feira (19) já marcada por um desafio político. A coleta dos dados foi realizada entre quarta-feira (17) e sexta-feira (19), com 2.004 entrevistas previstas para medir intenção de voto, rejeição, avaliação do governo Lula, economia, segurança pública e influência dos desdobramentos internacionais, como o impacto de Donald Trump na eleição brasileira. Contudo, em meio à coleta, a Polícia Federal deflagrou a 9ª fase da Operação Compliance Zero, que mirou o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, no caso Banco Master.
Essa operação coloca a pesquisa em uma situação atípica: parte dos entrevistados respondeu antes da repercussão da operação e outra parte após o caso Wagner dominar o noticiário. Isso gera uma amostra que mistura dois cenários políticos distintos, reduzindo a validade política do levantamento, embora sem invalidar o seu valor jornalístico.
Jaques Wagner não é candidato, mas caso afeta o Planalto
É fundamental destacar que Jaques Wagner não é candidato à presidência da República. O foco da disputa nacional permanece entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A operação contra Wagner cria desgaste para o Planalto, porém não o coloca como adversário direto de Flávio Bolsonaro na corrida pelo Palácio do Planalto.
Wagner é uma figura política relevante e líder do governo no Senado, mas a direita ainda aposta em Flávio Bolsonaro como seu nome para 2026. Este, por sua vez, enfrenta suspeitas envolvendo sua relação política e financeira com Daniel Vorcaro, o Banco Master e o financiamento do filme “Dark Horse”. O caso Wagner emerge no meio dessa crise, mas não elimina a presença do bolsonarismo no centro das investigações.
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Contexto político e impacto das crises no cenário eleitoral
Essa não é a primeira vez que a pesquisa Datafolha enfrenta o desafio de captar o impacto de crises políticas em tempo real. Em maio, Lula e Flávio Bolsonaro estavam empatados no segundo turno, mas a maioria das entrevistas ocorreu antes da divulgação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”. Na ocasião, o escândalo não foi totalmente absorvido pelo levantamento. Agora, a operação contra Wagner aconteceu no meio da coleta, evidenciando a dificuldade de pesquisas em acompanhar a velocidade da crise política.
A Polícia Federal informou que a nova fase da Compliance Zero apura suspeitas de corrupção envolvendo agente público com foro privilegiado, em esquema de irregularidades no Sistema Financeiro Nacional. Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, São Paulo e Distrito Federal, além de medidas cautelares como proibição de contato entre investigados e suspensão de passaportes. Os crimes investigados incluem corrupção passiva, ativa e lavagem de dinheiro.
Resposta e repercussão de Jaques Wagner e do bolsonarismo
Jaques Wagner negou as irregularidades e afirmou que sua relação com Daniel Vorcaro é “praticamente zero”. Segundo ele, não atuou em favor do Banco Master, e os valores apreendidos teriam origem em diárias legais de viagens oficiais. Wagner também contou que Lula lhe telefonou após a operação, demonstrando “absoluta confiança” e tratando o episódio como uma tentativa de desestabilização política.
Do lado adversário, o bolsonarismo busca transformar a operação em um empate moral. A campanha de Flávio Bolsonaro reagiu com cautela, avaliando que a ação contra Wagner “equilibra o jogo” após o desgaste do escândalo “Dark Horse”, mas reconhece que Flávio Bolsonaro permanece no centro das suspeitas envolvendo Vorcaro, Banco Master e financiamentos.
Consequências para a disputa eleitoral e o sistema político
No Paraná, a crise impacta diretamente os palanques de aliados de Flávio Bolsonaro, como Sergio Moro (PL), Deltan Dallagnol (Novo) e Filipe Barros (PL). A direita local terá de lidar com questionamentos sobre Wagner, enquanto a esquerda precisará explicar o avanço da investigação que atinge o líder do governo Lula no Senado.
Assim, a pesquisa Datafolha mantém seu valor jornalístico, mas sua validade política é limitada. Caso apresente melhora de Lula, a oposição argumentará que o levantamento não captou totalmente o impacto do caso Wagner. Se indicar recuperação de Flávio Bolsonaro, o governo apontará contaminação da amostra por um fato recente ainda sem defesa consolidada. Em caso de empate, cada lado selecionará os dados que lhe convêm.
Mais relevante que os percentuais de intenção de voto é o fato de que a eleição de 2026 começa a ser atravessada por uma crise financeira que extrapola os balanços bancários, alcançando o Supremo Tribunal Federal, o Congresso e contaminando as principais forças da disputa presidencial. Enquanto o Datafolha mede intenção de voto, o caso Banco Master evidencia até que ponto o sistema político brasileiro está entrelaçado a bancos frágeis, dinheiro opaco e influência parlamentar, em um cenário de campanhas cada vez mais custosas.
