O Alfabeta e a Nova Face do Carnaval
O verão de Salvador ganha um novo capítulo cultural com o surgimento do Grupo Recreativo de Ocupação Lacrativa Alfabeta. Este bloco foi idealizado para ampliar horizontes, reviver memórias esquecidas e afirmar, em alto e bom som, que o samba é também um espaço de diversidade LGBTQIAPN+.
Mais do que um simples desfile, o Alfabeta se apresenta como um movimento cultural e político, transformando o Carnaval em um local de pertencimento, representatividade e inclusão efetiva. A missão é clara: resgatar e dar visibilidade a compositoras e compositores que contribuíram significativamente para a construção do samba brasileiro, mas que, ao longo da história, foram silenciados devido ao machismo, à LGBTfobia e à exclusão social.
Com base em pesquisas acadêmicas e na força da cultura popular, o bloco homenageia figuras essenciais do samba, reconhecidas por muitos como parte desta comunidade, como Ismael Silva, carioca de 1905 a 1978, e Assis Valente, baiano de 1911 a 1958. Ao mesmo tempo, o Alfabeta não deixa de lado a criação autoral, a irreverência e aquele “close bafônico” que também permeia essa narrativa cultural rica. O resultado é um repertório que entrelaça memória, identidade e afirmação política, reafirmando o samba como uma linguagem viva e plural.
Desfile Inaugural e Compromisso com a Acessibilidade
O Alfabeta realizará seu desfile inaugural no dia 17 de janeiro, na Rua do Meio, no Rio Vermelho, a partir das 15 horas. O evento será totalmente adaptado para receber pessoas com deficiência, estabelecendo-se como um dos projetos mais inovadores do verão soteropolitano. Desde sua concepção, o bloco possui um compromisso radical com a acessibilidade, focando não apenas em adaptações posteriores, mas em uma inclusão estrutural genuína.
Essa proposta se concretiza em ações palpáveis, já que o desfile contará com diversos recursos acessíveis e terá o apoio de importantes personalidades da comunidade, como o ator e modelo Maurício Rosário. Ele foi convidado para desenvolver o sinal oficial do Alfabeta em Libras, um gesto significativo que reconhece a comunidade surda dentro do contexto carnavalesco.
Comunicação Digital Acessível e Inclusão na Bateria
A lógica de acessibilidade do Alfabeta se estende à sua comunicação digital. O perfil oficial do bloco no Instagram (@blocoalfabeta) foi planejado para ser acessível, com todas as postagens em carrossel contendo texto alternativo e audiodescrição. Além disso, os vídeos são acompanhados de tradução em Libras e conteúdos exclusivos são organizados para garantir autonomia de acesso a pessoas surdas e cegas.
O Alfabeta se constrói de maneira coletiva, estando com inscrições abertas para percussionistas LGBTQIAPN+. O bloco convida todos que tocam cuíca, repique, caixa ou tamborim a se unirem à bateria, com um convite especial para pessoas com deficiência. Os ensaios ocorrem na Quadra do Apaxes, no Dique do Tororó, sempre às segundas e quartas-feiras, nos dias 5, 7, 12 e 14 de janeiro, das 19h às 22h.
Um Marco para a Comunidade LGBTQIAPN+
Para Adriano Marques, um dos idealizadores do projeto, o Alfabeta representa um marco simbólico e político: “O Alfabeta é feito por e para a comunidade LGBTQIAPN+, mas é, acima de tudo, um bloco para todos. O mais importante é resgatar uma história que foi escrita, mas não contada: a da presença e do protagonismo da comunidade LGBTQIAPN+ no samba, que sempre esteve ali, criando, inovando, abrindo caminhos. Agora, contamos essa história a partir da nossa própria voz.”.
De acordo com ele, com uma proposta estética, política e cultural integrada, o Bloco Alfabeta tem tudo para se estabelecer como um ícone do Carnaval contemporâneo, um espaço onde diversidade, arte, acessibilidade e pertencimento caminham juntos, reafirmando a essência do samba como uma expressão livre, coletiva e transformadora.
O projeto “Alfabeta: Celebrando a Diversidade e Promovendo a Inclusão no Samba de Salvador” foi contemplado nos Editais Paulo Gustavo Bahia, recebendo apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura, por meio da Lei Paulo Gustavo, promovida pelo Ministério da Cultura, do Governo Federal.
