Controvérsias em Torno da Transferência de Controle Bancário
Em meio a investigações que apuram a venda de carteiras de crédito fraudulentas pelo Banco Master, o Banco Central (BC) deu sinal verde em julho de 2025 para a transferência de um banco sob controle de um dos suspeitos, o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Master. Lima, que já ocupou posição de destaque na instituição, foi preso em novembro do ano passado, junto a outros executivos, na Operação Compliance Zero. Apesar de ter sido liberado e estar monitorado por tornozeleira eletrônica, Lima agora enfrenta uma nova fase judicial.
As investigações sobre fraudes envolvendo as carteiras de crédito consignado do Banco Master acenderam o alerta no BC em março de 2024. Documentos revisados pela Folha revelam que a denúncia do regulador ao Ministério Público Federal (MPF) foi feita em julho daquele ano, enquanto a autorização para que Lima adquirisse o controle do Banco Voiter, anteriormente conhecido como Indusval, ocorreu em 24 de julho.
O Banco Voiter, que encerrou 2024 com R$ 7,5 bilhões em ativos, estava sob controle do Master desde fevereiro de 2024. Após assumir a diretoria do banco, Lima rebatizou a instituição para Banco Pleno, que foca no segmento de empresas. Desde sua prisão, o empresário foi afastado das operações diárias pelo BC, embora o banco continue suas atividades normalmente.
A Investigação e o Fluxo Suspicioso
O início das investigações foi marcado por um fluxo atípico de R$ 12,2 bilhões do Banco de Brasília (BRB) para o Banco Master, referente à venda de carteiras de crédito consignado nos primeiros meses de 2025. Em resposta a um ofício do BC, o banco afirmou que os créditos provenientes desse montante originaram-se de duas associações de servidores da Bahia. Contudo, apurações posteriores revelaram que essas entidades não tinham condições financeiras de justificar tais valores.
Após novas indagações, o Banco Master alegou ter um novo parceiro para ofertar crédito consignado, desencadeando mais investigações sobre irregularidades. A decisão judicial que autorizou as prisões de Lima e outros executivos apontou indícios de que o empresário controlava indiretamente as associações mencionadas, utilizando procuração para negociar com instituições financeiras. A conexão entre o telefone de contato das associações e uma empresa de Lima na Receita Federal levantou novas suspeitas, levando a Polícia Federal a realizar ações contra as entidades.
Trajetória de Augusto Lima e Relações Políticas
Augusto Lima, natural de Salvador (BA), é conhecido por sua conexão com a classe política local, especialmente com membros do PT. Curiosamente, a trajetória de Lima no setor bancário começou na Ebal (Empresa Baiana de Alimentos), onde passou a desenvolver produtos como o Credcesta, um cartão de benefícios consignados. Lima consolidou sua parceria com o Banco Master em 2018, tornando-se sócio em 2020. Sob sua influência, o Credcesta expandiu-se para 176 municípios de 24 estados brasileiros até 2024.
Entretanto, a relação de Lima com o Banco Master e as operações do Credcesta geraram insatisfações, conforme reportagens destacaram que muitos clientes relataram desconhecimento sobre contratos de crédito assinados. Após a aquisição do Banco Voiter, o empresário também incorporou a corretora Intercap e recuperou o Credcesta, agora sob o Banco Pleno, onde opera com servidores municipais e estaduais.
Implicações e Riscos da Transferência
Especialistas em legislação financeira expressam preocupações sobre a transferência de ativos para um ex-sócio durante uma investigação sensível. José Andrés Lopes da Costa, advogado especializado, ressalta que tal ato requer um escrutínio aprofundado, especialmente no contexto de possíveis fraudes. A transferência de controle bancário deve ser precedida de avaliações rigorosas quanto à liquidez, solvência e histórico dos proponentes, criticando a possibilidade de leniência em casos envolvendo ex-sócios sob investigação.
O Banco Central, ao ser questionado sobre a análise da venda para Lima, optou por não comentar, citando questões de sigilo envolvidas no caso. No entanto, fontes próximas ao processo afirmam que as decisões do BC são respaldadas por fundamentos legais.
Conclusão da Investigação e Futuro de Lima
A situação de Augusto Lima não é única, pois outro ex-sócio, Maurício Quadrado, teve sua transferência de controle negada pelo BC no mesmo dia em que Lima obteve a aprovação. Quadrado, que também enfrentou problemas legais, é acusado de não ter demonstrado capacidade financeira para administrar uma instituição bancária.
À medida que as investigações prosseguem, incluindo ações judiciais e análise de movimentações financeiras, a expectativa é que mais detalhes sobre as operações fraudulentas e o papel de Augusto Lima venham à tona, impactando significativamente a credibilidade do sistema financeiro nacional.
