Transformação de Mestres da Capoeira em Literatura
A Casa das Histórias, localizada em Salvador, foi palco de uma ação literária especial nesta quarta-feira (8). Durante o evento, foram distribuídos cordéis que trazem mestres de capoeira como protagonistas, nas obras “A Lenda do Badauê” e “Mulungu de Ronda”, ambas criadas pelo ilustrador e comunicador Eddy Azuos. A iniciativa, promovida pela Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador (Secult), coincide com a visitação gratuita aos equipamentos culturais da cidade, em celebração ao Dia Nacional do Livro Infantil.
A atividade não se limitou à distribuição dos livros; os visitantes tiveram a oportunidade de participar de um bate-papo com o autor, onde puderam esclarecer dúvidas e conhecer mais sobre seu processo criativo. Segundo Eddy Azuos, a ideia para escrever essas obras surgiu de uma reflexão sobre a escassez de referências nacionais no universo dos super-heróis. “Por que não olhamos para os capoeiristas como fontes de inspiração para criar nossos próprios super-heróis?” questionou o autor, ressaltando a presença de ninjas e outras figuras icônicas em comparação a histórias brasileiras.
A obra inaugural, “A Lenda do Badauê”, se passa em cenários icônicos de Salvador, como o Dique do Tororó, e apresenta um justiceiro negro como protagonista, cuja figura é uma homenagem ao Mestre Moa do Katendê. O segundo título, “Mulungu de Ronda”, traz à tona a figura histórica de João Mulungu, um líder escravizado de Sergipe, reforçando a conexão com as raízes culturais brasileiras.
Uma Mistura de Gêneros: Cordel e Hip-Hop
Eddy Azuos, com um histórico na cultura hip-hop, inovou ao adaptar a métrica do rap para a literatura de cordel. O primeiro livro foi elaborado em quintilhas, enquanto o segundo segue a estrutura de sextilhas. Azuos enfatizou a importância da rima, da cadência e da sensibilidade do leitor ou ouvinte ao se deparar com as obras. “É um desafio interessante, pois é preciso ter cuidado com a rima, evitando a repetição de palavras, e ao mesmo tempo, garantir que as emoções sejam transmitidas ao público”, disse o autor.
De acordo com Eddy, o cordel é uma forma de literatura que deve ser recitada, não apenas lida. “Escrever para o cordel significa imaginar a sonoridade. Cada palavra deve ser escolhida cuidadosamente para que a obra faça sentido e ressoe com quem a lê”, acrescentou.
A participação do autor em espaços como a Casa das Histórias é vista como essencial para promover a democratização da leitura. Em 2023, Eddy já havia se apresentado na Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô), onde também distribuiu exemplares de seus livros entre os visitantes. Essa interação com o público ajuda a criar um vínculo mais forte entre a literatura e a cultura popular brasileira, reafirmando a relevância das histórias locais na formação de uma identidade cultural rica e diversificada.
