Um encontro musical entre Brasil e França
As trajetórias de Henri Salvador e Marcos Valle se entrelaçam em um projeto que homenageia a versatilidade e o talento de dois ícones da música. Henri Salvador (1917-2008), nascido na Guiana Francesa, conquistou a França com sua habilidade de transitar por diversos gêneros musicais, tornando-se um dos artistas mais populares do país. Já Marcos Valle, nascido em 1943, emergiu na efervescência da bossa nova e ganhou reconhecimento internacional como um dos músicos brasileiros mais influentes.
Repertório que revela facetas pouco exploradas
O álbum “Henri Salvador do Brasil”, produzido por Valle, reúne 11 canções do francês interpretadas por artistas brasileiros e franceses de diferentes gerações. Entre as faixas, destaca-se a inédita “Je Parie”, um dueto póstumo entre Paula Morelenbaum e a voz original de Salvador.
Marcos Valle optou por fugir do óbvio ao escolher as músicas. Apesar de Henri Salvador ser frequentemente associado à bossa nova, Valle ressalta que sua obra vai muito além desse gênero. “Eu quero ampliar a percepção das pessoas. Existe um Henri com muitas outras coisas que precisam ser mais conhecidas. Quis mostrar toda a versatilidade dele”, explica o músico.
Essa visão levou à decisão de não incluir “Dans Mon Île”, a canção mais conhecida do francês no Brasil, que já foi gravada por Caetano Veloso e influenciou a criação da bossa nova.
Projeto nasce de paixão e ganha força em 2023
O projeto teve início como uma iniciativa pessoal de Emmanuel de Ryckel, um belga apaixonado pelo Rio de Janeiro e pela obra de Henri Salvador. Ele apresentou a ideia a Marcos Valle há cinco anos, mas foi somente em 2023 que o álbum tomou forma, especialmente após o convite para gravar “Rose” com Joyce Moreno.
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“Claro que eu aceitei. Nesse momento da minha vida, quero fazer apenas coisas que eu amo. E eu amo Henri Salvador”, diz Valle, que viu o projeto ganhar impulso a partir desse dueto.
Escolha dos intérpretes e arranjos cuidadosos
Na seleção dos artistas, Marcos Valle considerou não apenas o talento, mas também a relação pessoal deles com Henri Salvador. “Todo mundo que eu convidei me disse adorar Henri Salvador. Todo mundo!”, relembra o produtor.
Valle buscou imprimir sua identidade musical, mas respeitando a essência das composições. Durante a produção, manteve contato com Catherine, viúva de Salvador, que contribuiu com sugestões.
Exemplo dessa abordagem é a versão de “Jardin d’Hiver” intitulada “Jardim”, interpretada por Simone, que ganhou uma nova atmosfera com influências latinas e jazzísticas, além de referências ao Steely Dan.
Relevância das influências brasileiras e internacionais
O álbum traz uma sonoridade diversificada, combinando elementos brasileiros e internacionais. Faixas como “Les Voleurs d’Eau”, com Seu Jorge, e “Le Wagon”, com Zé Ibarra, apresentam uma pegada pop contemporânea, enquanto outras refletem a riqueza cultural de Salvador.
Marcos Valle destaca que, ao ouvir as músicas de Salvador, percebeu influências da Bahia e uma forte presença percussiva, o que motivou o convite a Seu Jorge para o projeto.
Participações que ampliam o diálogo cultural
Além dos brasileiros, o álbum conta com artistas franceses como Flore Benguigui, que divide “Chambre avec Vue” com Moreno Veloso, e o rapper Féfé, presente em “Maladie d’Amour / Mal de Desamor” ao lado de Rogê. Silva com o Quarteto do Rio e Bebel Gilberto também participam, enriquecendo ainda mais a homenagem.
Dueto póstumo emociona no álbum
Uma das faixas mais marcantes é o dueto entre Paula Morelenbaum e Henri Salvador em “Je Parie”. Salvador, que já havia gravado um disco no Brasil produzido por Jaques Morelenbaum, entregou a Paula uma fita cassete com sua voz na canção. Durante a gravação, Valle propôs incluir a voz original do francês, resultando em uma interpretação carregada de emoção.
Possibilidade de espetáculo ao vivo
Marcos Valle manifesta o desejo de levar o projeto para os palcos, mesmo reconhecendo a dificuldade de reunir todos os participantes em um único show. A ideia é realizar apresentações segmentadas, mantendo viva a memória e a circulação da obra de Henri Salvador para diferentes públicos.
