O corpo das ruas e a cultura popular nas crônicas de Luiz Antonio Simas
Luiz Antonio Simas, renomado autor do “Dicionário da História do samba”, possui uma obra que merece maior atenção especialmente dos leitores baianos, embora ainda seja pouco conhecido na Bahia. Professor e historiador carioca, Simas desenvolve uma visão que dialoga profundamente com temáticas familiares à cultura baiana, como samba, umbanda, carnaval e manifestações populares. Apesar das diferenças socioeconômicas e culturais entre Salvador e Rio de Janeiro, a forma como o autor analisa as ruas, os batuques, as gíngas e as tradições aproxima essas cidades por meio da cultura.
Na sua escrita, Simas se apresenta como um cronista contemporâneo, evocando a memória de João do Rio e até mesmo um olhar crítico e poético à la Baudelaire, tendo o samba como elemento central. Seus textos pintam o Rio de Janeiro como um espelho da sociedade brasileira, reconhecendo a cidade como um dos centros históricos da cultura nacional por muitos anos.
Entre o samba e as ruas: os livros “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusiácas & Estilhaços Pelintras”
Os livros “O Corpo Encantado das Ruas” e “Crônicas Exusiácas & Estilhaços Pelintras”, publicados pela Editora Civilização Brasileira em 2019 e 2023, respectivamente, exemplificam a abordagem de Simas sobre a cultura popular. Essas obras exploram temas como samba, umbanda e os caminhos de Exu, divindade que simboliza abertura e movimento tanto no Rio quanto em Salvador.
As crônicas de Simas não celebram anti-heróis em busca de ascensão social, mas personagens que vivem naturalmente dentro do contexto sociocultural e político das ruas. Um exemplo é o texto “A Casa da Tia Ciata”, que destaca Hilária Batista de Almeida, sacerdotisa do candomblé e anfitriã cuja casa se tornou um ponto fundamental para o desenvolvimento do samba carioca.
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Fonte: amapainforma.com.br
Cultura popular, história e crítica social nas crônicas de Simas
As crônicas de Simas combinam o saber histórico com o pulsar das ruas, casas de santo, bares e quadras de escolas de samba, revelando a vitalidade da cultura popular. Ao mesmo tempo em que celebra essas manifestações, o autor faz críticas importantes. Ele aponta, por exemplo, que eventos como a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 impulsionaram um modelo empresarial para a cidade que prejudicou o protagonismo das escolas de samba, instituições comunitárias essenciais para os negros cariocas no período pós-abolição.
Essa reflexão se estende a outras cidades brasileiras, como Salvador, onde tradições culturais — afoxé, maracatu, samba-reggae — têm sido relegadas diante de formas de entretenimento mais comerciais. A crítica de Simas destaca o desafio de preservar as raízes culturais frente à lógica do turismo e do mercado.
Personagens e histórias que narram a crônica cultural
Em “Crônicas Exusiácas & Estilhaços Pelintras”, as narrativas ganham profundidade ao apresentar personagens como Tião Casemiro, conhecido no Mercado de Madureira como “a voz de ouro da umbanda”. O livro traz trajetórias dessas figuras populares e histórias que exploram os bastidores do samba e da umbanda com sensibilidade e rigor histórico.
O autor também incorpora referências filosóficas, como o pensamento do filósofo Walter Benjamin e sua interpretação do “Angelus Novus”, conectando-o à imagem da Pedra de Exu. Essa abordagem demonstra sua erudição e capacidade de dialogar com diversos campos do conhecimento.
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Fonte: atividadenews.com.br
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Um olhar atento às ruas e à memória cultural
“O Corpo Encantado das Ruas” apresenta um Simas mais livre, que percorre o cotidiano das cidades, abordando temas como jogo do bicho, futebol, bares, crianças e cultura popular com olhar atento e sensível. Ele resgata histórias e tradições por meio de crônicas que revelam as múltiplas facetas das cidades, como na crônica “Terreiro de São Sebastião, okê”, que traz à tona as origens culturais e guerreiras do Rio e Niterói.
Esses textos evidenciam a importância da crônica como registro da vida cultural e social, mostrando que o cronista deve narrar o que vê e sente nas ruas, conectando passado e presente. Luiz Antonio Simas realiza essa tarefa com equilíbrio, unindo conhecimento e poesia sem perder o foco na realidade cultural.
Assim, os livros de Simas são leitura recomendada para quem deseja conhecer mais profundamente as manifestações populares e a história cultural do Rio de Janeiro, com reflexões que ecoam em outras cidades brasileiras. Seu olhar crítico e poético oferece um mapa rico para quem quer se aproximar da cultura popular com sensibilidade e profundidade.
