Análise da Influência Cultural nas Eleições Paulistas e Baianas
Na política brasileira, algumas questões pedem uma interpretação quase antropológica, especialmente quando consideramos o contexto cultural local. Esse é o caso do panorama eleitoral em São Paulo e na Bahia, que pode ser examinado sob a luz de duas importantes correntes artísticas do Brasil: o modernismo de Mário de Andrade e o barroco crítico de Gregório de Matos. Mais do que meras referências literárias, essas correntes capturam formas de entender o poder e a sociedade, assim como suas contradições.
A obra “Pauliceia Desvairada”, lançada em 1922 por Mário de Andrade, é um marco do modernismo brasileiro. Este trabalho não apenas rompeu com o passado, mas também traduziu as rápidas transformações de São Paulo, que, impulsionada pelo Convênio de Taubaté (1906), experimentou um avanço industrial e social significativo. Por outro lado, o patrimonialismo em outros estados estava ligado a um retrocesso econômico, especialmente após a crise do café em 1929.
Com seu uso de versos livres, Mário de Andrade retrata um mosaico de tensões e ambições: “As ruas se cruzam num delírio de aço e de nervos,/ A cidade cresce como um organismo febril,/ E o homem corre, fragmento perdido no tumulto.” Essa dualidade de uma São Paulo “desvairada” — caótica e repleta de contradições — ecoa no atual cenário eleitoral, contrastando com a eleição de Tarcísio de Freitas (Republicanos) como governador em 2022. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva na megacidade, por sua vez, destacou a relevância de suas propostas.
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Atualmente, a liderança de Tarcísio, que detém cerca de 38% das intenções de voto, representa uma São Paulo focada na gestão e na segurança, estabelecendo um diálogo com setores médios e empresariais. Entretanto, o crescimento de Fernando Haddad (PT), com 26% de intenções, revela a resistência de uma São Paulo mais social, que prioriza a inclusão e as políticas públicas.
Contrastes Políticos e a Interpretação Barroca
A dualidade presente em São Paulo é uma característica do modernismo: não se busca uma síntese, mas sim a coexistência de opostos. A capital paulista é, de fato, um espaço onde se destaca a candidatura ao Senado de Simone Tebet (PSB), que surge com 14% a 15% das intenções, representando um centro político que busca diálogo em meio à pluralidade urbana. Sua candidatura é um reflexo da demanda por moderação, contrastando com a polarização que marca o cenário nacional.
O que talvez surpreenda não seja somente o favoritismo de Tarcísio, mas também a capacidade de resistência e reorganização do campo progressista, que inclui Haddad e candidaturas ao Senado mais alinhadas à centro-esquerda, como Tebet. Esta São Paulo, vista pelos olhos de Mário de Andrade, continua a ser um organismo em constante mudança, onde o novo ressignifica o antigo.
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Na Bahia, no entanto, o cenário eleitoral remete a uma tradição distinta: a do barroco crítico de Gregório de Matos. Nascido em Salvador no século XVII, o poeta, conhecido como “Boca do Inferno”, utilizou a linguagem como uma ferramenta de combate ao poder estabelecido, denunciando corrupção e vícios da elite colonial. Sua obra, marcada pela ironia mordaz, retrata uma sociedade hierarquicamente estruturada, permeada por conflitos sociais e políticos: “Que falta nesta cidade?… Verdade./ Que mais por sua desonra?… Honra./ Falta mais que se lhe ponha?… Vergonha.”
A herança barroca é crucial para entender a persistência de estruturas políticas na Bahia, especialmente o fenômeno do carlismo, que ainda exerce influência no interior, representado atualmente por ACM Neto (União). Este, por sua vez, tem uma base eleitoral forte em Salvador, onde foi prefeito de 2013 a 2020. Com cerca de 41% das intenções de voto, ele lidera as pesquisas, em empate técnico com o atual governador Jerônimo Rodrigues (PT), que possui entre 36% a 37% das intenções.
Um Barroco Político
O cenário eleitoral na Bahia reflete, sem dúvida, um barroquismo político repleto de contrastes e ambiguidades. De um lado, o carlismo renovado busca se posicionar como uma alternativa de gestão, mas é respaldado por um sistema político tradicional. De outro lado, a força do petismo se ancora em políticas sociais e na liderança de Lula, que ainda goza de forte influência no estado.
A resiliência dessas forças, à semelhança da crítica de Gregório de Matos, revela um processo de modernização econômica que não rompe completamente com as estruturas de poder tradicionais e as desigualdades persistentes. A política baiana não está centrada numa ruptura modernista, como em São Paulo, mas sim numa tensão barroca, onde o novo tende a conviver com o antigo.
Essa abordagem não é exclusiva da Bahia. O que realmente se destaca é o “modo de fazer política”, que não pode ser reduzido a caricaturas de personalismo ou atraso. Como afirma o cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, trata-se de um sistema sofisticado, historicamente moldado, que combina forte enraizamento territorial com um personalismo estruturado, fundamentado em redes políticas duradouras, lealdade e mediação de interesses.
