Um elo entre culturas e ideais
Os renomados escritores Jorge Amado e José Saramago, apesar de suas origens distintas, formaram uma conexão duradoura nos anos 1990. Embora suas trajetórias tenham sido marcadas por conquistas individuais, a amizade que floresceu entre eles se destacou por suas semelhanças em valores e ideais. Recentemente, em Salvador, Paloma Amado, filha do famoso autor baiano, e Pilar del Río, viúva do Nobel de literatura, se reuniram para discutir a relevância da memória e do legado de seus pais. Ambas atuam na gestão das fundações que perpetuam a obra de Amado e Saramago, respeitando a essência de suas criações literárias.
Na última edição da Bienal do Livro Bahia, realizada no dia 18, Paloma e Pilar participaram do painel intitulado ‘O Sal da Vida’, mediação feita pela jornalista e biógrafa de Jorge Amado, Joselia Aguiar. Durante uma conversa com O GLOBO, elas relembraram momentos marcantes da amizade entre os dois escritores, ressaltando que, embora suas personalidades fossem distintas — Amado, alegre e extrovertido; Saramago, mais sombrio e introspectivo —, a conexão entre eles sempre foi pautada pelo respeito e pela descontração.
Humanismo e resistência ao pensamento único
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Paloma Amado destaca que a relação entre Amado e Saramago se fundamentava em um profundo humanismo. “Ambos eram críticos do pensamento único e estavam sempre dispostos a colocar o ser humano acima de qualquer ideologia ou partido. Eles defendiam a importância de pensar de forma independente”, afirma Paloma, que também cuida do legado de sua mãe, a escritora Zélia Gattai. Essa visão compartilhada os uniu de maneira singular, mostrando que, apesar das diferenças culturais, seus valores humanos os aproximavam.
O trabalho das duas mulheres na gestão das fundações que representam Amado e Saramago é um exemplo de como é possível equilibrar o aspecto comercial com a qualidade editorial. Enquanto muitos herdeiros se preocupam apenas com os lucros, Paloma e Pilar optam por uma abordagem mais consciente. “Recentemente, conseguimos acordos para novas traduções da obra de Jorge Amado, priorizando qualidade em vez de retorno financeiro”, explica Paloma. “Isso é fundamental para nós: escolher quem melhor respeita a obra”, completa.
A preservação do legado literário
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A obra de Jorge Amado, que influenciou gerações de leitores, acaba de ser traduzida para o armênio, um idioma com um mercado restrito. Ao comentar sobre essa tradução, Paloma compartilha sua lógica. “Paguei um valor simbólico para essa edição, porque acreditamos que a presença do meu pai na cultura armênia é muito importante”, diz. A tiragem foi limitada a três mil exemplares, mas para ela, o valor simbólico vai além do financeiro; é uma questão de valorizar a cultura local.
Pilar, por sua vez, enfatiza a responsabilidade de manter a conexão entre os escritores e seus leitores. “A literatura é um diálogo entre quem escreve e quem lê. O mercado é apenas um aspecto secundário desse relacionamento”, afirma. A Fundação José Saramago, localizada em Lisboa, não é apenas um espaço de preservação; é um centro cultural vivenciado, onde os visitantes podem explorar a biblioteca pessoal do autor e até desfrutar de um café com ele de forma simbólica.
Legados que transcendem fronteiras
Em Salvador, a memória de Jorge Amado é celebrada de forma vibrante. O Memorial Casa do Rio Vermelho e a Fundação Casa de Jorge Amado atraem visitantes interessados em sua rica história literária. “Meu pai sempre imaginou que seria esquecido após sua morte, mas sua casa se tornou um dos pontos culturais mais visitados do Brasil”, recorda Paloma.
Paloma também se destacou recentemente ao criar edições artesanais que apresentam receitas e histórias ligadas à cultura baiana. Um momento especial foi quando entregou uma dessas edições à atriz Isabelle Huppert, que estava em Salvador para um evento. “Foi uma situação inusitada; eu não sabia quem ela era até que me mostraram fotos do meu pai com outras personalidades do cinema”, compartilha Paloma com um sorriso.
Essa troca entre Paloma e Pilar não é apenas uma recordação do passado literário, mas um compromisso contínuo com a preservação e valorização das obras de Jorge Amado e José Saramago. Assim, por meio de suas iniciativas, ambas mantêm vivas as vozes de dois gigantes da literatura, assegurando que seu pensamento crítico e humanitário continue a ressoar nas gerações futuras.
