Uma Nova Perspectiva sobre o Municipalismo
O tema municipalismo, que foi crucial para a vitória de Antônio Lomanto Jr (UDN) na disputa pelo governo da Bahia em 1962, volta à tona na atual pré-campanha para a chapa majoritária de 2026. A disputa entre Lomanto e Waldir Pires (PSD) ilustra não apenas as dinâmicas políticas da época, mas também os desafios enfrentados pelas lideranças contemporâneas como ACM Neto e Jerônimo Rodrigues, que buscam resgatar esse conceito para fortalecer suas candidaturas.
As semelhanças entre as campanhas de 1962 e 2026 são inegáveis, mas é essencial reconhecer que cada uma possui sua própria narrativa e contexto. Por exemplo, tanto Neto quanto Rodrigues estão se espelhando em posturas estadualistas semelhantes às de Lomanto, que se destacou ao unir esforços para o fortalecimento do municipalismo na Bahia. No entanto, os tempos mudaram: os municípios atualmente gozam de maior autonomia e independência em relação ao governo central, algo que era praticamente inexistente há mais de seis décadas.
O cenário atual é marcado por um avanço significativo nos meios de comunicação. Enquanto em 1962 as campanhas eram lideradas principalmente por veículos impressos e emissoras de rádio, hoje as redes sociais e a televisão desempenham papéis fundamentais na disseminação de mensagens políticas. Essa transformação não só altera as estratégias de campanha, mas também a maneira como os candidatos se conectam com o eleitorado.
Na década de 1960, a situação do interior da Bahia era bastante crítica, com uma economia predominantemente agrícola e uma grande carência em infraestrutura. A distância de Salvador, capital do estado, tornava o acesso aos serviços governamentais um desafio. A frase de Lomanto, “o interior vai marchar para a capital”, simbolizava a luta por igualdade em direitos e investimentos. Hoje, esse discurso já não se sustenta da mesma forma, uma vez que os municípios se tornaram mais estruturados e independentes.
O Contexto Político Atual
O atual ambiente político na Bahia é influenciado por uma série de fatores, incluindo o legado deixado pelos governos anteriores. Os líderes do PT, por exemplo, evoluíram de um projeto militar da década de 1960 para uma posição de destaque na política local, refletida em iniciativas como o Pólo Petroquímico de Camaçari. A economia, que antes se baseava na exportação do cacau, agora está centrada em um desenvolvimento mais diversificado.
ACM Neto, por sua vez, tem utilizado a imagem de Jequié e do prefeito Zé Cocá, criando um paralelismo claro com a estratégia de Lomanto. Essa articulação conta ainda com o apoio do neto de Lomanto, o deputado federal Leur Lomanto Jr, que está diretamente envolvido no fortalecimento da chapa. Jerônimo, por outro lado, tem mantido convênios com os municípios, uma estratégia que se assemelha à sua campanha de 2022, quando foi eleito com o apoio de Rui Costa.
É interessante notar que essa relação de dependência das lideranças políticas com os municípios data da era de Wagner, que desde 2007, conquistou os chamados “currais eleitorais”. Embora Otto Alencar, uma figura influente na política interiorana, tenha sempre apoiado o petismo, sua ascensão ao poder no estado ainda depende de um caminho não trilhado através das urnas.
Transformações nos Meios de Comunicação
A evolução dos meios de comunicação é um fator crucial quando se analisa a política baiana. Em 1962, os jornais impressos e as emissoras de rádio dominavam o cenário, sendo A Tarde um dos principais veículos que apoiava Lomanto. As táticas de campanha eram limitadas e dependiam de panfletos, cartazes e jingles, enquanto as pesquisas de opinião eram rudimentares e manipuláveis.
Atualmente, a situação é radicalmente diferente. A população baiana saltou de 5,9 milhões em 1960 para cerca de 14,8 milhões em 2026, e a influência dos meios impressos foi drasticamente reduzida. As redes sociais e a televisão se tornaram o principal canal de comunicação entre políticos e eleitores, promovendo uma interação mais dinâmica e imediata.
A legislação eleitoral também se tornou mais rigorosa, o que aumenta a necessidade de estratégias bem elaboradas por parte dos marketeiros políticos. Com a proliferação das redes sociais, cidadãos comuns desempenham um papel ativo na vigilância e na divulgação de informações, o que pode resultar em repercussões legais significativas para campanhas que não se adequarem às novas normas.
Novos Desafios e Perspectivas
À medida que se aproximam as eleições de 2026, tanto ACM Neto quanto Jerônimo Rodrigues enfrentam o desafio de entender como comunicar suas propostas de municipalismo a uma sociedade cada vez mais urbanizada e conectada. Frases de efeito como “o feijão na lapela” ou a ideia de que o interior marcha para a capital já não ressoam com a mesma força, especialmente num contexto onde as necessidades sociais são palpáveis em todos os níveis, na capital, assim como no interior.
Portanto, as campanhas políticas precisarão de estratégias que considerem a complexidade das demandas atuais de uma população crítica e bem informada. O futuro do municipalismo na Bahia dependerá da capacidade dos líderes em estabelecer conexões genuínas com os eleitores, utilizando ferramentas modernas de comunicação que realmente reflitam os anseios da sociedade.
