Desafios no Combate ao Câncer de Colo do Útero
Em 2025, o câncer de colo do útero causou a morte de cerca de 20 mulheres por dia no Brasil, o que totaliza 7.249 óbitos no ano, segundo dados preliminares do Ministério da Saúde. A oncologista Mônica Bandeira, que atua em Manaus há 46 anos, expressa sua frustração ao afirmar: “Nada mudou. Essa é a verdade.” Apesar de alguns avanços pontuais, ela acredita que o Brasil ainda não conseguiu reverter o panorama alarmante da doença, que é quase totalmente prevenível por meio da vacina contra o HPV (papilomavírus humano). Para o triênio 2026-2028, o Inca (Instituto Nacional de Câncer) estima aproximadamente 19.310 novos casos por ano, um aumento em relação aos 17.000 previstos para o triênio anterior.
A situação é considerada crítica por especialistas do setor. Eduardo Cândido, ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada em Ginecologia Oncológica da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), descreve o atual estado como um “platô”, onde não há diminuição na incidência da doença.
Diagnóstico e Prevenção: Um Ciclo Prejudicial
Uma pesquisa realizada pelo grupo da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e publicada em 2022 no International Journal of Gynecological Cancer revela que cerca de dois terços dos cânceres ginecológicos no Brasil são diagnosticados em estágios avançados. Esse atraso no diagnóstico é um dos principais problemas a serem enfrentados. Na análise das taxas de incidência, destaca-se que o câncer de colo do útero é o segundo mais comum entre as mulheres nas regiões Norte e Nordeste, atrás apenas do câncer de mama. No Amazonas, a taxa chega a alarmantes 28,57 casos por 100 mil mulheres, a mais alta do país.
“Há um abismo de políticas que deveriam ser direcionadas para os locais que precisam mais”, frisa Cândido, ao apontar as disparidades nas políticas de saúde entre as diferentes regiões do país. No Sul e no Sudeste, os diagnósticos são mais precoces e menos dramáticos, ao contrário do que ocorre em estados como o Amazonas, onde as condições são muito mais severas.
Desigualdade nos Sistemas de Saúde
A oncologista Mariana Scaranti, do Hospital Nove de Julho, evidencia a discrepância entre os atendimentos: “No privado, eu nunca tive uma paciente com odor forte”, referindo-se a um sinal clínico que indica um tumor em estado avançado. Em Manaus, Bandeira descreve uma realidade oposta, onde o odor intenso é comum entre as pacientes que chegam ao hospital. “Se tiver uma paciente distante da gente, na recepção, a gente já sente o cheiro. É muito forte”, relata a médica.
Esse quadro se repete em um ciclo vicioso, onde mulheres chegam em estágios críticos, muitas vezes apresentando tumores necrosados e hemorrágicos, já complicados por insuficiência renal. Além disso, em regiões interioranas do Amazonas, a espera para exames preventivos pode levar até seis meses, complicando ainda mais o cenário.
Inovações em Diagnóstico e Desafios Persistentes
Recentemente, o Ministério da Saúde começou a substituir o exame de Papanicolau pelo teste de DNA-HPV, que oferece uma detecção mais precisa do vírus. Enquanto o primeiro tem uma sensibilidade de apenas 65% a 70%, o novo método alcança quase 100%. Um resultado negativo do teste de DNA-HPV também elimina a necessidade de nova coleta por cinco anos, ao contrário do Papanicolau, que exige exames anuais. Essa mudança, embora promissora, ainda encontra desafios, especialmente em áreas remotas onde o acesso a serviços de saúde é limitado.
Atualmente, sete estados brasileiros oferecem o exame de DNA-HPV pelo SUS (Sistema Único de Saúde), entre eles Pernambuco, Pará e São Paulo. O Amazonas, por sua vez, está planejando a implementação e já se encontra em fase de projeto piloto em 12 municípios, visando expandir os exames até 2026.
Compromisso com a OMS e Futuro da Saúde Pública
O Brasil estabeleceu um compromisso com a OMS (Organização Mundial da Saúde) para eliminar o câncer de colo do útero como um problema de saúde pública até 2030. Isso requer vacinar 90% das meninas, rastrear 70% das mulheres e tratar 90% dos casos diagnosticados. Com a vacina contra o HPV sendo disponibilizada gratuitamente pelo SUS para jovens de 9 a 14 anos, o país alcançou uma cobertura vacinal de 86% entre meninas e 74,4% entre meninos em 2025.
Embora a cobertura vacinal tenha se recuperado após um período de queda, especialistas são céticos quanto à possibilidade de atingir as metas em curto prazo. “O impacto do aumento da vacinação só será sentido daqui a uma década, não agora”, alerta Scaranti, que destaca a necessidade de ações práticas urgentes em rastreamento e diagnóstico precoce para melhorar as estatísticas de casos e óbitos nos próximos anos.
