A Epidemia da Obesidade no Brasil
A alta da obesidade no Brasil se tornou uma preocupação crescente entre especialistas de saúde. Nos últimos 20 anos, a prevalência da condição aumentou em impressionantes 118%, conforme dados do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde (SNVS), sob supervisão do Ministério da Saúde. Essa ascensão é reflexo de mudanças significativas no estilo de vida da população, incluindo hábitos alimentares inadequados, maior ingestão de alimentos ultraprocessados e a diminuição das atividades físicas. O cenário se torna ainda mais alarmante quando se observa o aumento do sobrepeso em crianças e adolescentes.
Segundo o World Obesity Atlas 2026, divulgado pela Federação Mundial de Obesidade, o Brasil possui quase o dobro de jovens acima do peso em comparação à média global. Essa realidade levanta sérias preocupações sobre os efeitos a longo prazo na saúde da população, enfatizando a necessidade de implementar estratégias eficazes de prevenção e promoção de hábitos saudáveis.
Fatores Contribuintes e Desafios
De acordo com o professor José Ernesto dos Santos, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, o aumento da obesidade é fortemente associado à alta carga calórica dos alimentos consumidos, em especial os ultraprocessados, combinada com uma queda na prática de atividades físicas. Ele ressalta: “A identificação entre fome e saciedade tornou-se um desafio em nossas vidas. Muitas vezes, não conseguimos controlar a alimentação, ingerindo alimentos enquanto assistimos à televisão ou fazemos compras.”
O cirurgião pediátrico Evandro Luís Cunha de Oliveira, do Hospital das Clínicas da FMRP, alerta que a obesidade é uma questão multifatorial, que pode ter início na infância. “Estudos mostram que 50% das crianças obesas continuarão com sobrepeso na adolescência, e 80% destes se tornarão adultos obesos. No ano passado, pela primeira vez, o número de obesos superou o número de desnutridos no Brasil”, destaca.
Oliveira também enfatiza que fatores como o aumento do tempo em frente a telas, a diminuição da atividade física e uma alimentação inadequada são cruciais para o agravamento desse problema. “É fácil entender a escolha por alimentos ultraprocessados quando um pacote de bolacha custa em média R$ 2, enquanto uma maçã chega a R$ 7. Essas decisões afetam diretamente a qualidade nutricional da dieta familiar.”
Consequências para a Saúde
Os problemas de saúde associados à obesidade são sérios e variados. Santos indica que doenças como hipertensão arterial, diabetes, intolerância à glicose e distúrbios ortopédicos são frequentemente observados em pacientes obesos. “As complicações que podem surgir, como hipertensão e diabetes, representam um grande desafio e podem se agravar com o passar do tempo”, alerta.
Para Oliveira, a obesidade também representa um fardo significativo para o sistema de saúde. “Pacientes obesos enfrentam um maior risco de desenvolver asma, doenças renais, hepáticas, hipertensão, AVC e infartos, gerando custos elevados para o sistema público de saúde, além de uma demanda crescente por atendimentos e internações”, argumenta.
Políticas Públicas para o Combate à Obesidade
O enfrentamento da obesidade exige ações que vão além do tratamento individual, incluindo a implementação de robustas políticas públicas. Santos enfatiza a necessidade de regular a produção e a promoção de alimentos que contribuem para a obesidade. “É fundamental ensinar às crianças sobre alimentação saudável nas escolas. Infelizmente, as propagandas que elas veem em suas redes sociais não promovem frutas e vegetais, mas sim alimentos prejudiciais.”
Oliveira complementa que é essencial promover mudanças estruturais no ambiente alimentar e nos hábitos da população. “Precisamos de uma política pública rigorosa que limite a publicidade de alimentos ultraprocessados e incentive a prática de atividades físicas ao ar livre, além de reavaliar a merenda nas escolas. Somente assim conseguiremos mudanças efetivas”, conclui.
A cartilha Guia Alimentar para a População Brasileira, lançada pelo Ministério da Saúde em 2014 e atualizada frequentemente, oferece orientações práticas para uma alimentação equilibrada, destacando a importância de consumir alimentos naturais e reduzir a ingestão de produtos ultraprocessados.
Em Ribeirão Preto, Oliveira observa que iniciativas já estão em andamento para combater a obesidade. “No ano passado, a cidade se tornou a primeira do Brasil a instituir uma lei para criar um Centro de Tratamento e Prevenção da Obesidade Infantil. Essa estrutura oferece atendimento em diferentes níveis, começando com acompanhamento nas unidades de saúde, passando por um centro de tratamento multidisciplinar, e, nos casos que requerem cirurgia, os pacientes são encaminhados ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto”, finaliza.
