Aumento Drástico nos Atendimentos Relacionados à Obesidade
Nos últimos dez anos, o Brasil testemunhou uma explosão nas taxas de atendimentos por obesidade entre usuários de planos de saúde, que cresceram alarmantes 108%. Os números revelam um salto de 40,7 casos para 84,5 atendimentos por cada 100 mil beneficiários, de 2015 até 2024. Grande parte desse incremento se deu a partir de 2020, em meio aos desafios impostos pela pandemia de Covid-19.
Esses dados foram revelados por um estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), que analisou registros da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O foco do levantamento abrange tanto atendimentos ambulatoriais quanto hospitalares, todos com diagnóstico relacionado à obesidade no contexto da saúde suplementar.
Obesidade em Números: Um Fenômeno Crescente
O problema da obesidade não é restrito ao contexto dos planos de saúde; ele se reflete em toda a população brasileira, com um aumento de 118% na taxa de obesidade entre adultos nos últimos 19 anos. Este dado foi extraído do levantamento do Vigitel, um projeto do Ministério da Saúde que monitora a ocorrência de doenças crônicas no país e que foi divulgado em janeiro deste ano.
No estudo desenvolvido pelo IESS, o aumento de atendimentos se revelou mais acentuado entre as mulheres, que tiveram uma taxa que saltou de 55,2 para 128,2 atendimentos por 100 mil beneficiárias — um aumento de 132%. Em contrapartida, os homens também apresentaram um crescimento significativo, embora menor, passando de 24,2 para 35,6 atendimentos por 100 mil, o que representa um aumento de 47%. Denizar Vianna, superintendente executivo do IESS, comenta que “as mulheres tendem a buscar mais o sistema de saúde, tanto no SUS quanto na saúde suplementar, o que gera um viés de busca”.
Impacto Econômico da Obesidade nas Diferentes Faixas Etárias
A análise dos dados por faixa etária destaca um impactante fenômeno econômico. Crianças e adolescentes de 0 a 19 anos registraram o maior crescimento proporcional, com a taxa de atendimentos subindo de 2,3 para 5,1 por 100 mil, uma alta de 121%. No entanto, o verdadeiro desafio reside entre os adultos de 20 a 59 anos, que representam a maioria dos beneficiários de planos de saúde e estão no centro das preocupações do setor. Nesse grupo etário, as taxas de atendimentos passaram de 62,2 para 134 por 100 mil, representando um crescimento de 116%. Este segmento, segundo o estudo, é onde a obesidade mais pressiona o sistema de saúde, impactando diretamente nos custos médicos, afastamentos laborais e na sustentabilidade do sistema de saúde.
Entre os idosos, aqueles com 60 anos ou mais também apresentaram um aumento considerável de 64%, passando de 11,5 para 18,9 atendimentos por 100 mil, o que indica uma demanda crônica e crescente. Bruno Sobral de Carvalho, diretor-executivo da FenaSaúde, alerta que a obesidade deve ser encarada como uma condição que pode gerar outras comorbidades, como doenças cardiovasculares, diabetes e problemas articulares. “Esse fenômeno é preocupante, pois resulta em uma população que, de maneira geral, apresenta mais doenças”, destaca Carvalho.
A Questão da Acesso e Políticas Públicas
Os pesquisadores que analisaram os dados alertam que parte do crescimento no número de atendimentos é reflexo do aumento no acesso a nutricionistas e de mudanças na regulamentação que ampliaram a cobertura desses serviços nos planos de saúde. Enquanto a ampliação do cuidado é vista como positiva, os especialistas ressaltam que ela é insuficiente se não acompanhada de abordagens mais abrangentes.
Dados sugerem que intervenções baseadas apenas em aconselhamento nutricional têm eficácia limitada em um cenário onde o sedentarismo e o consumo elevado de alimentos ultraprocessados são comuns. Para Denizar Vianna, é crucial que o combate à obesidade vá além dos limites dos planos de saúde e do SUS, pedindo por políticas públicas robustas que melhorem o acesso a alimentos saudáveis e que implementem tributações sobre produtos ultraprocessados, similar ao que foi feito com o controle do tabagismo.
A Nova Era dos Tratamentos para Obesidade
A chegada dos agonistas de GLP-1, medicamentos que promovem a perda de peso significativa, intensificou o debate sobre a obesidade. Com a expectativa da redução de preços devido ao término de patentes, a questão econômica se torna central, já que a alta prevalência de obesidade exigiria um grande investimento por parte das operadoras de saúde para cobrir a medicação para todos os que precisassem.
No contexto da saúde suplementar, muitos medicamentos ambulatoriais não têm cobertura obrigatória, exceto em casos previstos por lei, como os oncológicos. Pesquisas indicam que a interrupção do tratamento pode levar a um reganho rápido de peso, retornando aos patamares anteriores em um curto período. Os autores do estudo defendem uma abordagem cautelosa, que considere a inserção de terapias de alto custo somente em condições de avaliação rigorosa de custo-efetividade.
A Importância de uma Abordagem Multidisciplinar
Vianna defende que uma eventual ampliação do acesso aos medicamentos deve ocorrer dentro de um modelo de cuidado estruturado, com acompanhamento de equipes multidisciplinares, que incluam suporte nutricional e incentivo à prática de atividades físicas. Carvalho complementa que ainda não existem evidências robustas de que o uso isolado de medicamentos seja mais eficaz do que as abordagens multidisciplinares. “É fundamental avançar na produção de evidências científicas sobre os benefícios das canetas emagrecedoras e como elas podem ser integradas a outras estratégias”, afirma.
Enquanto isso, os programas preventivos voltados ao acompanhamento da obesidade ainda não progrediram como o esperado no setor de saúde, em parte devido à alta rotatividade de beneficiários entre operadoras, o que desestimula investimentos de longo prazo em prevenção. Apesar disso, Vianna acredita que a maturação do mercado deverá promover uma visão mais integrada e sistêmica sobre a questão da obesidade.
