O Papel das Baianas de Acarajé na Cultura e na Economia
Algumas profissões são mais que apenas um meio de sustento; elas carregam em si um legado cultural que resiste ao tempo. Um exemplo marcante é o ofício das baianas de acarajé, reconhecido em 2005 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Essas profissionais, ícones da cultura baiana, não apenas distribuem suas delícias em tabuleiros, mas também levam um pedaço do Carnaval para todos os cantos do país, sendo celebradas em alas especiais durante os desfiles das escolas de samba.
Com mais de 3.500 baianas atuando em Salvador e uma estimativa que ultrapassa 8 mil em toda a Bahia, essas mulheres são pioneiras no empreendedorismo, trazendo um impacto significativo para suas comunidades. Elas perpetuam receitas e tradições afro-brasileiras, oriundas do culto a Oyá, uma das divindades femininas das religiões afro-brasileiras, cuja principal oferenda é o acarajé. Este bolinho, amplamente comercializado, é acompanhado por iguarias como abará, vatapá, caruru, camarão e uma variedade de doces que refletem a riqueza da culinária local.
Férias de Verão e Novo Aprendizado na Prática
No vibrante cenário de Salvador, o período de férias de verão se torna uma oportunidade de ouro para as baianas de acarajé, atraindo turistas em busca de sabores repletos de história e ancestralidade. Emília Bittencourt, que há 20 anos vende suas iguarias na famosa praia do Porto da Barra, ressalta que sua jornada na profissão já dura 65 anos. Antes de se estabelecer na praia, passou 45 anos no Largo de Amaralina, um antigo ponto de referência para as baianas da cidade. Recentemente, Emília participou do Projeto Sustenta Folia, uma iniciativa do Sebrae em parceria com a Secretaria Municipal de Sustentabilidade e Resiliência de Salvador.
O projeto visa fortalecer o empreendedorismo durante o Carnaval, promovendo a geração de emprego e renda com práticas de economia verde. Essa abordagem não apenas valoriza lideranças femininas, mas também incentiva a cooperação entre pequenos negócios e cooperativas de recicladores, todos unidos em busca de um impacto social, econômico e ambiental positivo.
“Foi muito importante aprender sobre reciclagem e como evitar a degradação da natureza. O projeto é valioso e nos ensinou a compartilhar essa mensagem com outras baianas e a comunidade”, afirma Emília, que já planeja aplicar as lições aprendidas durante o Carnaval deste ano, utilizando materiais sustentáveis em seu trabalho.
Histórias de Vida e Transformação
Alessandra Souza Braga, outra participante do projeto, tem seu tabuleiro na orla de Itapuã. Há 16 anos, ela entrou para o ramo, mas sua história começou ainda na infância, quando, após a perda da mãe, aprendeu o ofício com duas tias. A próxima quinta-feira (5) marca a Festa da Lavagem de Itapuã, um evento que faz parte do calendário festivo da Bahia e que antecede o Carnaval. Alessandra também se mostra pronta para o evento e, assim como Emília, está determinada a aplicar os conceitos de preservação ambiental e reciclagem que adquiriu no Sustenta Folia.
“Já sabia um pouco sobre reciclagem, mas participar do projeto foi crucial para aprimorar meu conhecimento sobre como trocar os materiais que uso no meu tabuleiro por opções mais sustentáveis”, refletiu Alessandra, que já recicla o azeite de dendê para transformar em sabão.
Cerimônia de Certificação e Conclusão do Projeto
Na próxima quarta-feira (4), ocorrerá a cerimônia de encerramento do treinamento para as 10 baianas de acarajé que participaram do Projeto Sustenta Folia 2026, no auditório do Sebrae, em Salvador. A partir das 8h30, as participantes receberão seus certificados e Emília, escolhida por unanimidade como a Embaixadora do Carnaval, será homenageada em reconhecimento ao seu papel significativo no projeto.
A coordenadora do Sustenta Folia no Sebrae, Márcia Suede, destaca que as atividades, que começaram em setembro de 2025, englobaram palestras e workshops sobre práticas de ESG (Ambiental, Social e Governança). “Foi gratificante levar à elas temas que pensávamos que não faziam parte do cotidiano delas e discutir como se preparar para o Carnaval. Notamos que estão atentas à sustentabilidade e à imagem de Salvador como uma cidade comprometida com a gestão de resíduos,” comenta. Com o término do projeto programado para março, as cooperativas de catadores de recicláveis e as micro e pequenas empresas envolvidas permanecem apoiadas por essa importante iniciativa.
