Uma Nova Perspectiva sobre Relações Internacionais
O discurso do primeiro-ministro canadense Mark Carney, proferido no Fórum Econômico Mundial em Davos, trouxe uma nova luz ao debate sobre a política internacional. Ao reconhecer o impacto da ofensiva de Donald Trump e a falência da ordem mundial pós-guerra, Carney instou que as potências médias, como o Canadá, unam forças. Essa posição é um convite para resistir à hegemonia mantida por grandes potências, promovendo uma nova ordem que preserva não apenas os interesses soberanos, mas também valores universais como direitos humanos e pluralismo político.
A eloquência do discurso de Carney contrasta com a demora na resposta de muitas nações ocidentais, incluindo o Brasil. Ambos os países, tradicionalmente alinhados aos EUA, experimentam um ambiente internacional cada vez mais complexo, onde a diplomacia precisa se reinventar. O primeiro-ministro do Canadá destaca-se ao convidar outros países a se juntarem a uma iniciativa que busca alternativas concretas frente à “blitz trumpista”, em vez de simplesmente criticar a ineficácia de instituições como a ONU.
O Papel da Política Externa Brasileira
O pronunciamento de Carney serve como um alerta e uma oportunidade para a política externa brasileira. Ao alinhar-se a essa nova visão, o Brasil pode não apenas reforçar laços com o Canadá e outras democracias, mas também resgatar suas melhores tradições diplomáticas. A atual estratégia do governo brasileiro, especialmente após as tensões geradas pelo tarifaço de Trump, parece caminhar em sintonia com essa nova abordagem, que vai além da mera retórica do “Sul Global”.
O discurso de Carney não apenas reflete uma clara visão de futuro, mas também se alinha com a necessidade de um novo eixo político que articule diplomacia e interesses econômicos. É necessário que o Brasil reconheça essa oportunidade para se posicionar como um protagonista no cenário internacional, sem depender de potências rivais, que frequentemente possuem traços autoritários.
San Tiago Dantas e a Política de Não-Alinhamento
Essa reflexão se conecta com o legado de San Tiago Dantas, que defendia uma política de não-alinhamento, permitindo que o Brasil exercesse sua autonomia nas relações internacionais. O pensador via a necessidade de o Brasil cooperar com outras nações para garantir sua soberania, evitando compromissos seletivos com os valores dos direitos humanos. Dantas argumentava que os interesses nacionais devem ser articulados com uma perspectiva cosmopolita, essencial para um país que se posiciona no cenário global.
A análise de Dantas pode ser vista à luz do discurso de Carney, que sugere que os países devem se unir em torno de interesses comuns, sem perder a visão de seus valores fundamentais. Essa abordagem pragmática, que não descarta a defesa dos direitos humanos, é crucial para uma política externa que busca garantir a soberania do Brasil em um mundo cada vez mais polarizado.
Construindo um “Outro Ocidente”
O conceito de “outro ocidente”, proposto por José Guilherme Merquior, também se torna relevante ao analisarmos a relação entre o Brasil e o restante do mundo. Essa reflexão sugere que o Brasil deve adotar uma postura que não seja nem anti-ocidental nem meramente reativa, mas que promova uma diplomacia que valorize suas raízes culturais e históricas. O momento atual exige que o Brasil atue como um mediador que busca um equilíbrio entre suas tradições e a necessidade de se adaptar a novas realidades geopolíticas.
Ao olhar para o futuro, a política externa do Brasil deve superar as ambiguidades ideológicas e abraçar uma linha que permita um desenvolvimento mais claro e seguro no cenário internacional. As relações com o Canadá e outras democracias devem ser fortalecidas, criando um espaço onde os ideais de soberania e direitos da sociedade civil possam coexistir. Em suma, o Brasil possui a capacidade e a diplomacia necessárias para se estabelecer como um ator relevante na nova ordem mundial que se desenha.
