A Captura de Maduro e Seus Reflexos nas Eleições Brasileiras
A recente captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, por força militar dos Estados Unidos em Caracas promete ressoar nas eleições brasileiras. Esse evento, segundo analistas, tende a intensificar os discursos polarizados entre o bolsonarismo e o petismo. De um lado, à direita, a narrativa anticomunista ganha força, vinculando Lula e o PT a regimes autoritários. Do outro, à esquerda, a bandeira da soberania nacional, que já havia obtido destaque durante o tarifaço imposto por Washington aos produtos brasileiros, se reafirma.
Os impactos desse incidente não podem ser subestimados. O cientista político Paulo Ramirez, da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (Fespsp), destaca que a questão da Venezuela é um tema delicado para o bolsonarismo, visto que permite ataques à esquerda e ao governo petista, mas, paradoxalmente, também alimenta a defesa da soberania nacional. Para ele, essa situação poderá tornar ainda mais forte a figura de Lula, especialmente após os percalços enfrentados durante a crise do tarifaço.
A Reação da Oposição e os Desafios da Direita
Vale lembrar que, ao contrário do que ocorreu com a recente sobretaxa sobre as exportações brasileiras, a postura controversa de Maduro — que é acusado de violar direitos humanos e perseguir opositores — não resultou em consequências econômicas imediatas. Isso abre espaço para candidatos da oposição, que tentam se alinhar à posição adotada por Donald Trump, destacando-se até mesmo em setores mais moderados. Ramirez ressalta que a figura de Maduro não é unânime nem entre os integrantes da esquerda.
A partir do momento da invasão americana, parlamentares e governadores da oposição têm buscado colar a imagem de Lula à de Maduro. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado por Jair Bolsonaro como candidato à presidência, foi contundente ao afirmar que Lula e Maduro seriam iguais, alertando que o Brasil não deve seguir o mesmo caminho da Venezuela. Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reconheceu a ação dos Estados Unidos e se alinhou novamente a Trump, tentando recuperar sua popularidade após a crise do tarifaço. Embora sua base eleitoral, composta por agropecuaristas e empresários, não deva ser afetada, há incertezas sobre como isso impactará o mercado internacional, especialmente na esfera do petróleo.
A Ofensiva da Esquerda e as Consequências Jurídicas
Por sua vez, o PT desencadeou ações judiciais na tentativa de defender-se das associações feitas por adversários, que tentaram vincular o partido e Lula ao narcotráfico na América Latina, em uma alusão às críticas do governo Trump contra Maduro. Essa estratégia é vista como uma tentativa de minar os ataques da direita. Contudo, o cientista político Rui Tavares Maluf adverte que o apoio precoce de Trump à oposição pode se revelar arriscado. Ele lembra que o ex-presidente americano já fez declarações polêmicas, como o desejo de anexar a Groenlândia, o que poderia complicar ainda mais a situação política no Brasil.
À medida que as eleições de outubro se aproximam, essa dinâmica oferece um tempo valioso para que Trump coloque suas ideias em prática. Maluf observa que essa situação é tão grave que se pode borrar as linhas que separam as ideologias. Uma retórica agressiva por parte dos EUA, se seguida de ações militares, transformaria o uso político desse evento em um desafio significativo.
O Que Esperar das Eleições e os Ganhos Diplomáticos
Observando o cenário eleitoral, Maluf interpreta a postura de Tarcísio e de outros governadores de direita como uma tentativa de manter uma relação próxima com Bolsonaro e seu eleitorado, mesmo em um contexto de desconfiança em relação à candidatura de Flávio. Governadores menos conhecidos, como Ratinho Júnior (PSD), do Paraná, e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, também se aproveitam da situação para tentar superar barreiras eleitorais.
Do lado da esquerda e do PT, Maluf argumenta que a estratégia de enfatizar a soberania em vez de apoiar abertamente o governo Maduro sinaliza as contradições que existem dentro do partido e da coalizão lulista. Além disso, essa abordagem visa preservar os avanços diplomáticos obtidos com a reversão do tarifaço e a boa relação mantida com os Estados Unidos. Entretanto, é difícil ignorar o histórico de apoio a abusos de direitos humanos na Venezuela, que somente recentemente foi questionado devido ao não reconhecimento do processo eleitoral de 2024.
