Um Refúgio de Saúde e Lazer
Houve um período em que Serrinha, na Bahia, era reconhecida como um verdadeiro destino de veraneio. Isso mesmo! Um lugar onde as pessoas não apenas buscavam descanso, mas também a cura de doenças, atraídas pelo clima fresco e o ar puro da região. Muitas pessoas viam na cidade um local ideal para relaxar, longe do estresse das grandes cidades e da poluição, principalmente em tempos de epidemias como a tuberculose e a cólera.
Essa fama de cidade de veraneio deve-se em grande parte ao desenvolvimento da linha férrea, que começou a operar em 1880, facilitando o acesso à cidade e promovendo a instalação de hotéis. A história nos mostra que, embora Serrinha não tenha abraçado completamente o turismo de forma empresarial, a cidade ainda oferece um clima ameno e diversos locais propícios para o lazer.
Naquela época, a região de Manga, em Biritinga, era conhecida pela produção de fumo e cereais, enquanto fazendas na área proporcionavam ótimas condições para a criação de gado. Além disso, o núcleo central da cidade, cercado por serras, fazia referência ao próprio nome Serrinha, que remete a um ambiente tranquilo e acolhedor.
É interessante notar que, durante o início do século XX, o hábito de veranear estava restrito a uma classe social mais abastada. Meus avós, por exemplo, não costumavam sair de Serrinha para passar férias em outros lugares. Naquela época, as praias ainda eram vistas como áreas de moradia para pescadores, longe do conceito de lazer que conhecemos hoje. Somente com o passar dos anos, as praias começaram a ser apropriadas como lugares de cura e descanso, especialmente nas proximidades de 1920.
A Gripe Espanhola e o Refúgio Serrinhense
Durante o período da Gripe Espanhola, que assolou o mundo entre 1918 e 1920, muitos habitantes de Salvador buscavam o ar fresco e claro de Serrinha, fugindo do caos e da incerteza da pandemia. O “Jornal de Serrinha” da época faz várias menções a viajantes que chegavam à cidade em busca de saúde e tranquilidade.
Um exemplo notável é o relato de Dr. Mário Cardoso Costa e sua família, que vieram a Serrinha para um passeio de veraneio, recebidos calorosamente por amigos locais. Ao mesmo tempo, o jornal alertava sobre os sintomas da gripe, oferecendo até mesmo receitas para tratar os doentes. Esses relatos mostram o quão sério era o contexto e como a população se mobilizava para preservar a saúde, vivendo principalmente em contato com a natureza.
Curiosamente, a combinação de um ambiente saudável e o consumo de alimentos simples, como ovos e carne assada, parece ter ajudado a população a enfrentar a epidemia. Ao contrário de outras regiões, onde o impacto foi devastador, Serrinha viu sua população se resguardar em seus costumes e tradições, que valorizavam o ar puro e a vida rural.
As Atrações de Serrinha no Passado
Na Serrinha do passado, os pontos turísticos eram, na verdade, a própria cidade e seus arredores. Um dos locais que atraíam visitantes era a Estação do Trem, um ponto de encontro para quem chegava à cidade. O Hotel da Leste, que hoje abriga um hospital, também era uma parada conhecida, assim como a Praça Luís Nogueira, com sua emblemática igreja matriz de Sant’Anna.
Além disso, havia o Retiro, um local fundado na zona rural por um reverendo, que desde 1829 servia como um espaço de descanso e espiritualidade. Atualmente, o Retiro ainda existe, com uma capela em funcionamento e uma pequena loja de artesanato que valoriza os produtos locais.
O desenvolvimento da cidade e a introdução de automóveis na década de 1930 abriram novas possibilidades para o turismo regional. As famílias mais abastadas começaram a visitar Serrinha com mais frequência, atraídas pela beleza natural e a tranquilidade que o campo proporcionava. Contudo, a cidade nunca deixou de ser vista como o lar de muitas famílias, que preferiam desfrutar de suas próprias terras em vez de se aventurar nas praias do litoral baiano.
O Legado de Serrinha
O que se percebe, portanto, é que Serrinha não apenas foi um destino de veraneio; ela se tornou um símbolo de resistência e resiliência. Através de diferentes épocas e desafios, como a Gripe Espanhola, a cidade manteve sua identidade e a conexão com suas raízes. A memória dos veranistas da época, como meus avós, ainda vive entre os habitantes atuais, que continuam a valorizar o que a cidade tem a oferecer em termos de cultura, natureza e história.
