O Legado de Valdemir dos Santos Pereira no Boxe Brasileiro
Camaçari, Dias d’Ávila, Conceição de Almeida, São Felipe, São Sebastião do Passé, Pojuca, Alagoinhas, Nazaré das Farinhas, Ilha de Itaparica e Cruz das Almas. Essas cidades do Recôncavo baiano são notórias por serem berços de boxeadores que ao longo dos últimos 20 anos se destacaram tanto a nível nacional quanto internacional. Mas o que há de especial nessa região que a torna um verdadeiro celeiro de talentos no boxe brasileiro? A resposta não é simples, sendo fruto de um longo processo que envolve várias pessoas, famílias, treinadores e gerações de atletas.
Um dos nomes que se destaca nesse contexto é o de Valdemir dos Santos Pereira, carinhosamente conhecido como Sertão. Ele não apenas colocou o Recôncavo baiano no mapa do boxe nacional, mas também fez história ao se tornar campeão mundial pela Federação Internacional de Boxe, uma das quatro principais organizações de boxe profissional do mundo. Exatamente no dia 21 de janeiro de 2006, completam-se 20 anos de sua conquista.
A coluna de hoje presta uma homenagem a Sertão e a todos que contribuíram para sua trajetória, repleta de memória, tradição e história. Sertão iniciou sua jornada no boxe ainda jovem, em sua cidade natal, Cruz das Almas. Treinando em um fundo de quintal — um espaço que, curiosamente, também é símbolo da cultura local, onde nasceram o candomblé e o samba —, ele foi apresentado ao boxe por Darinho, um dos primeiros treinadores da região. Desde cedo, sua força de vontade e velocidade chamaram a atenção.
Após realizar suas primeiras lutas em Cruz das Almas, Sertão se mudou para Salvador, onde começou a treinar com Luis Dórea, na famosa Academia Champion. A virada em sua carreira aconteceu em 1994, quando, aos 19 anos, conseguiu uma oportunidade em São Paulo, fruto de uma parceria entre Dórea e o experiente treinador Antônio Carollo. Essa mudança foi crucial, pois São Paulo oferecia melhores condições para o desenvolvimento de boxeadores, como bolsas e salários abrangidos por clubes e prefeituras.
O ex-boxeador olímpico Washington Silva, amigo e conterrâneo de Sertão, destacou que ele foi o primeiro baiano a buscar novas oportunidades em São Paulo. Com a dissolução da equipe do São Paulo, Sertão foi convidado por Servílio de Oliveira, primeiro boxeador brasileiro a conquistar uma medalha olímpica, para integrar o time dos bancários em São Bernardo do Campo. Posteriormente, ele se juntou à equipe de São Caetano do Sul, onde teve Ivan “Pitu” de Oliveira, filho de Servílio, como seu treinador. Pitu foi fundamental em sua preparação, guiando-o desde sua quarta luta até a conquista do título mundial.
A luta que selou seu nome na história do boxe ocorreu em 21 de janeiro de 2006, em Connecticut, nos Estados Unidos, contra o tailandês Fahprakorb Rakkiatgym. Na pesagem, Sertão se mostrou confiante, afirmando que tinha vindo da Bahia preparado para a vitória. E assim foi: após 12 rounds intensos, ele triunfou por decisão unânime.
A trajetória de Sertão é detalhada no livro “Em 12 Rounds”, escrito pelos jornalistas Bruno Freitas e Maurício Dehó. Durante sua carreira olímpica, ele competiu no Pan-Americano de 1999, em Winnipeg, e nos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, onde venceu sua primeira luta, mas foi eliminado em seguida. No profissionalismo, entre 2001 e 2006, Sertão teve um desempenho notável, vencendo 24 de suas 25 lutas, sendo 15 delas por knockout. Sua única derrota ocorreu na primeira defesa do título, apenas quatro meses após sua conquista.
Valdemir dos Santos Pereira, o Sertão, é uma figura emblemática no boxe brasileiro, se juntando a nomes como Éder Jofre, Miguel de Oliveira e Acelino “Popó” Freitas, sendo o quarto brasileiro a conquistar um título mundial. Uma verdadeira inspiração para novos talentos e um motivo de orgulho para o Recôncavo baiano.
